sexta-feira, 29 de agosto de 2014

O meu alien


Eu odeio o meu umbigo. É um alien gordo, largo, fundo, difícil de limpar. É uma merda. Uma vez meu namorado comentou como é raro ver um umbigo cheiroso e é verdade. Não que o meu seja fedorento, sejamos justos, mas definitivamente não exala o perfuminho de bebê do meu sabonete. Pode esfregar até com detergente, esfolar a criatura. Não tem jeito, meu caro, nunca serão! Já procurei no Google se existe alguma micro plástica ao menos pra deixá-lo mais raso. Sim, admito, eu sou uma daquelas taradas que procuram no Google até bula de remédio e receitas pra soltar o intestino. 

Mas voltando ao umbigo, existe sim uma operação para deixá-lo oval, raso e vertical, acredita nisso? Segundo aquele site, blog, sei lá que merda é aquela de Yahoo Answers, muitas mulheres frequentemente procuram um cirurgião só por conta do cobiçado umbigo vertical. Que alívio, não sou a única maluca no mundo! O problema é que tenho medinho de entrar na faca, então vamos deixar o projeto do umbigo oval para o dia em que eu perder a lucidez de vez.

O fato é que um dos super "especialistas" do Yahoo Answers explicou com toda a credibilidade de um engana trochas como eu, que alguns umbigos são fundos por conta de uma tal gordura subcutânea ao redor do monstrinho. Sabe de nada, inocente! Aquilo não tem nada de sub, na real, é uma borda de banha tão poderosa que o deixa soterrado na barriga implorando por um bilhão de abdominais infra para o coitado tentar respirar. Mas aí ele mexe com dois outros caras muito mal encarados que não me abandonam jamais: a preguiça e a larica. Uma briga sem fim, nível Israel e Palestina.

Outro dia minha terapeuta disse: "Fernanda, o mundo não gira em torno do seu próprio umbigo". Eu, comigo mesma, me lembrei do meu alien e pensei: Graças a Deus!

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

O último pedaço


Lá estava eu gorda e voraz me lambuzando de catupiry e camarão. Cada mordida um orgasmo. A língua salivante dava cambalhotas na boca e as celulites se reproduziam em festa. Que alegria! O objeto do crime? Um suculento e impiedoso rissole recheado da mais alta perdição que se tem notícia. 

Um caso indefensável, confesso. No entanto, euzinha aqui era a ré mais feliz do tribunal. Felicidade que sem dúvida tinha prazo de validade a vencer e eu sabia que o fim estava próximo. Os neurônios até já se esforçavam para aceitar sem muita dor que o último pedaço estava sentenciado. Era preciso otimizar cada mastigada da forma menos sofrida possível. Porém... Ah porém...

Nada como uma reviravolta num caso aparentemente óbvio. Na reta final da condenação eis que surge um cúmplice tão culpado quanto eu. Um dos homens mais cruéis e desalmados da história. Ele não só cometeu um pecado atroz quanto duplicou sua pena ao consumar o pecado do pecado. Nem Judas seria capaz de tamanha barbaridade. Não foi apenas uma traição. Foi uma emboscada.

Tudo aconteceu em segundos. Minhas mãos posicionavam o último pedaço entre os dedos trêmulos ainda não muito conformados com o fim. Ao me preparar para o ato final sorrateiramente outra mão, que definitivamente não era a minha, se materializou bem diante do meu nariz. Lá estava eu cara a cara, mano a mano, com uma cena tão insolente que desacreditei do que estava por vir. 

Foi o tempo de a ficha cair para o mais petulante dos mortais raptar o último fragmento que me restava do rissole de camarão. Ele não só cometeu uma violência contra mim como impediu o meu grand finale. Qualquer juiz mequetrefe sabe que nem em terra de bandido comete-se uma atrocidade desse nível. Era o apocalipse.

Como alguém rouba um último pedaço? Cadê a moral deste ser? Cadê a ética da humanidade? Eram as perguntas que rondavam o júri antes da sentença final. Foi o suficiente para abrandar minha pena, que como se vê, já havia sido dura demais. 

Tamanha injustiça me fez aprender na pele e no estômago a nunca dar mole com um camarão na mão, sobretudo o último. Já condenada pelo pecado da gula, ainda fui obrigada a concordar com o veredicto final dado a marteladas pelo juiz. "Fernanda, sua pecadora, que isto lhe sirva para dar mais atenção às sábias palavras do filósofo Zeca Pagodinho: camarão que dorme a onda leva". E leva mesmo...

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

O bagulho é doido


Um Instagram matador. Combos de vodka, mulherada, playboyzada, uma explosão de noitadas. A vida e a obra de Carlos Henrique vão muito além de casa, trabalho e Baixo Gávea. O cara desafia qualquer limite do que seria uma rotina social normal. Festa é todo dia e a rede social tá aí, claro, pra divulgar as boas do nosso camarada. São sinapses e mais sinapses do que há de mais profundo e consistente em pool parties, boat parties, mountain parties, beach parties, all shit parties. Nas legendas, um único lema: o bagulho aqui é dooooido!

Uma vida inteira feita de likes e hashtags. O bonitão não tá de bobeira. Em pouco tempo chegou a 10k seguidores! Uooooouuuuu, sente o drama, broooother! É muita "tiração" de onda! Dizem que metade é comprada, mas sinceramente, CA-GUEI! Neguinho tá seguindo? Tá dando uma moral lá nos likes? Então já é!

Mais conhecido como Brodão pelos malandrecos do Leblon e adjacências, nunca imaginou que sua fixação pelo Instagram lhe causaria problemas. Tudo porque um dia percebeu que as fotos da galera com os clássicos comentários "patronagem reunida" ou "só a diretoria" já estavam meio manjadas. O novo plano infalível seriam as selfies com caretas do tipo "sou muito crazy". Não é que a parada explodiu? Mais de mil likes por foto. Porém, como diz seu dialeto, #sóquenão. É que tamanha popularidade acabou proliferando uma imensidão de plágios em toda a internet. Que vacilação...

"Carlos Henrique está se sentindo boladão", diz o Facebook. E agora? As selfies foram tão banalizadas que, em pouco tempo, os 10k viraram 5k e assim foi ladeira abaixo. Apelou então para um aplicativo x9 que delata todos os ex-seguidores, mas se deparou com uma lista interminável de traíras. Anotou um por um e deu o troco: unfollow em geral! Qual foi da parada, irmão? Bando de comédia! Ex-seguidor é inimigo, tá ligado?! É papo de tiro, porrada e bomba! Terror e pânico! Faixa de Gaza!

A cada nova party que surgia era mais um ex-seguidor que tomava porrada, até porque papai é desembargador e aí sabe como é né? Ele só não contava com uma queda tão sinixxxtra de likes e consequentemente, uma cambada cada vez maior de comédias pra tomar pescotapa. Pô, maior esculacho com o cara.... Em poucos meses seu Instagram mais parecia uma página fantasma. Decidiu então detonar seu perfil. So late, darling... Arrumou tanto caô que os promoters passaram a vetá-lo das all shit parties.

Dizem os ex-camaradas que Brodão virou maior sujeira. Era hora então de varrer tudo pra debaixo do tapete. Sumiu das redes sociais, dos exclusives sunsets e até dos rooftops, quem diria... Não se vê mais o garotão nem ali de rolézinho pelo BB Lanches. Neguinho já tá tirando o cara até pra maluco. Vê se pode? Falam que agora ele tá metido nesses lances aí sinixxxtros de terapia, psicologia, médico de cabeça e o escambau. Mas verdade seja dita, ele avisou. Afinal, o bagulho é dooooooido, broooother!

quarta-feira, 2 de julho de 2014

O vício


Confesso, eu estalo dedos. Já tentei diversos truques pra me livrar da dependência, mas nada foi capaz de vencer esta luta. E olha que não me falta cartão vermelho. É que ninguém fica indiferente diante da sinfonia que componho. Já me avisaram que é feio, aflitivo, deprimente, mas não me aguento, é um fardo, um tormento. São cerca de 240 estaladas por dia, portanto dez estalos por hora. É, eu também estalo os dedos dormindo. Infelizmente o nível da doença já está bem avançado.

Nas inúmeras tentativas de rehab apelei pra tudo. Porém, o prazer daquele pá pá pá entre os ossinhos é como arrematar um gol aos 47 do segundo tempo. A comparação futebolística não é à toa. É que eu e a seleção temos um adversário em comum: a temida tensão. Por culpa dela, nestes tempos de Copa, talvez eu tenha triplicado as estaladas. É provável que até a final eu chegue à overdose de estalos, quebre os dez dedos, adquire uma artrite para o resto da vida. 

Não chego a ser uma ogra estaladora de dedos, afinal respeito os ambientes não muito propícios para tamanha "delicadeza". Jamais alguém me verá esmigalhando as mãos num jantar romântico ou numa entrevista de emprego. Eu realmente me contenho. Mas e quando rola aquela esticada na noite? Logo com ele que pensa estar acompanhado de uma donzela tão graciosa, na verdade uma maníaca obsessiva compulsiva. Pois é, dormir de conchinha, refém da abstinência de estalos por pelo menos oito horas é pior que pênaltis contra o Chile. O silêncio do quarto também não ajuda. Qualquer mini estaladinha já pode despertá-lo. Haja coração, Galvão!

Meu consolo é que me limito às mãos. Não sou daquelas taradas que contorcem ombros, pescoço e pés à procura do estalo perfeito. Umas fritadinhas ali no indicador, polegar e demais companheiros já são suficientes. Também não sou fominha, sabe aquelas pessoas que não se contentam com os próprios dedos e mendigam estalos em mãos alheias? Me tira dessa! Sei bem o limite da fronteira, não avanço territórios. 

Minhas defesas até que são bem contundentes, mas já é hora de virar o jogo. Agora só quero atirar as mãos pra cima e gritar é campeão. Expulsar toda a tensão, rezar para o Felipão e também para o Neymar. Que eles vençam este enredo, virem a Copa do avesso, sem prorrogação, como num simples e sonoro estalar de dedos.

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Eu mato aula


Noite sim e noite sim também eu sonho que estou matando aula. Não é exagero. No meu inconsciente sou a líder mundial do turismo escolar. Na verdade, o ambiente até que é bem variado. Mato aula no Colégio Santo Agostinho, na PUC, no curso de inglês e até em lugares que nunca estudei. Essa noite por exemplo sonhei que matava uma aula do Colégio Wakigawa. Não sei se isso que chamavam de "escola" ainda existe, mas me lembro que ali sim era o grande império internacional de matadores de aula. 

Já foram tantas noites de matanças que hoje me peguei refletindo sobre o porquê dessa fixação. Até confesso que na minha fase de estudante tive mesmo algumas fugas secretas, mas meu currículo não chegou a ser de uma homicida em série. Eram matanças espaçadas, digamos assim. Lapsos que quando aconteciam, admito, me mergulhavam num prazer inenarrável. Ao contrário de muitas amigas, eu não matava aula para aprontar coisas ilícitas, se é que vocês me entendem. A lacuna acadêmica era totalmente preenchida com horas e horas de sono. Que delícia!

Dormir à tarde depois de almoçar bife com batata-frita ao som de Chaves no SBT era pura volúpia. Quanta felicidade! Me deleitava em saber que enquanto isso todos reviravam os olhos na aula de trigonometria. Ainda assim o maior prazer vinha mesmo do espírito "ilegal" implícito em matar aula. Era uma forma maravilhosa de transgressão. Contra a lei dos pais, dos professores e dos amigos invejosos que nunca conseguiam brecha para burlar a única obrigação que tínhamos. Eu matava aula na minha própria casa, quanto luxo! Contanto que meu pai e nem meus filhos no futuro leiam esse texto, admito, com as bochechas rosadas de vergonha, que matar aula era realmente um dos meus melhores atributos.

Aposentei minha carteirinha de estudante há uns anos mas o prazer de matar aula definitivamente não abandonou meus sonhos. Trigonometria, fórmulas de química, leis da Física, está tudo lá no meu inconsciente. Aulas que não me serviram tanto para a vida, mas que alimentam uma incrível sede de transgressão. Mesmo que em fantasia.