quarta-feira, 2 de julho de 2014

O vício


Confesso, eu estalo dedos. Já tentei diversos truques pra me livrar da dependência, mas nada foi capaz de vencer esta luta. E olha que não me falta cartão vermelho. É que ninguém fica indiferente diante da sinfonia que componho. Já me avisaram que é feio, aflitivo, deprimente, mas não me aguento, é um fardo, um tormento. São cerca de 240 estaladas por dia, portanto dez estalos por hora. É, eu também estalo os dedos dormindo. Infelizmente o nível da doença já está bem avançado.

Nas inúmeras tentativas de rehab apelei pra tudo. Porém, o prazer daquele pá pá pá entre os ossinhos é como arrematar um gol aos 47 do segundo tempo. A comparação futebolística não é à toa. É que eu e a seleção temos um adversário em comum: a temida tensão. Por culpa dela, nestes tempos de Copa, talvez eu tenha triplicado as estaladas. É provável que até a final eu chegue à overdose de estalos, quebre os dez dedos, adquire uma artrite para o resto da vida. 

Não chego a ser uma ogra estaladora de dedos, afinal respeito os ambientes não muito propícios para tamanha "delicadeza". Jamais alguém me verá esmigalhando as mãos num jantar romântico ou numa entrevista de emprego. Eu realmente me contenho. Mas e quando rola aquela esticada na noite? Logo com ele que pensa estar acompanhado de uma donzela tão graciosa, na verdade uma maníaca obsessiva compulsiva. Pois é, dormir de conchinha, refém da abstinência de estalos por pelo menos oito horas é pior que pênaltis contra o Chile. O silêncio do quarto também não ajuda. Qualquer mini estaladinha já pode despertá-lo. Haja coração, Galvão!

Meu consolo é que me limito às mãos. Não sou daquelas taradas que contorcem ombros, pescoço e pés à procura do estalo perfeito. Umas fritadinhas ali no indicador, polegar e demais companheiros já são suficientes. Também não sou fominha, sabe aquelas pessoas que não se contentam com os próprios dedos e mendigam estalos em mãos alheias? Me tira dessa! Sei bem o limite da fronteira, não avanço territórios. 

Minhas defesas até que são bem contundentes, mas já é hora de virar o jogo. Agora só quero atirar as mãos pra cima e gritar é campeão. Expulsar toda a tensão, rezar para o Felipão e também para o Neymar. Que eles vençam este enredo, virem a Copa do avesso, sem prorrogação, como num simples e sonoro estalar de dedos.

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Eu mato aula


Noite sim e noite sim também eu sonho que estou matando aula. Não é exagero. No meu inconsciente sou a líder mundial do turismo escolar. Na verdade, o ambiente até que é bem variado. Mato aula no Colégio Santo Agostinho, na PUC, no curso de inglês e até em lugares que nunca estudei. Essa noite por exemplo sonhei que matava uma aula do Colégio Wakigawa. Não sei se isso que chamavam de "escola" ainda existe, mas me lembro que ali sim era o grande império internacional de matadores de aula. 

Já foram tantas noites de matanças que hoje me peguei refletindo sobre o porquê dessa fixação. Até confesso que na minha fase de estudante tive mesmo algumas fugas secretas, mas meu currículo não chegou a ser de uma homicida em série. Eram matanças espaçadas, digamos assim. Lapsos que quando aconteciam, admito, me mergulhavam num prazer inenarrável. Ao contrário de muitas amigas, eu não matava aula para aprontar coisas ilícitas, se é que vocês me entendem. A lacuna acadêmica era totalmente preenchida com horas e horas de sono. Que delícia!

Dormir à tarde depois de almoçar bife com batata-frita ao som de Chaves no SBT era pura volúpia. Quanta felicidade! Me deleitava em saber que enquanto isso todos reviravam os olhos na aula de trigonometria. Ainda assim o maior prazer vinha mesmo do espírito "ilegal" implícito em matar aula. Era uma forma maravilhosa de transgressão. Contra a lei dos pais, dos professores e dos amigos invejosos que nunca conseguiam brecha para burlar a única obrigação que tínhamos. Eu matava aula na minha própria casa, quanto luxo! Contanto que meu pai e nem meus filhos no futuro leiam esse texto, admito, com as bochechas rosadas de vergonha, que matar aula era realmente um dos meus melhores atributos.

Aposentei minha carteirinha de estudante há uns anos mas o prazer de matar aula definitivamente não abandonou meus sonhos. Trigonometria, fórmulas de química, leis da Física, está tudo lá no meu inconsciente. Aulas que não me serviram tanto para a vida, mas que alimentam uma incrível sede de transgressão. Mesmo que em fantasia.

terça-feira, 13 de maio de 2014

Fly me to Paris


Da noite para o dia uma viagem a Paris. Pisquei bem os olhos enrugando cada milímetro de pálpebra. Precisava ter certeza de que tudo não passava de um sonho. É o tipo de pegadinha que meu inconsciente adora aprontar. Quis checar todas as variáveis. Lá fora, uma festa de arromba aguçava meus ouvidos, mas soava algo insano como axé ou pagode. Definitivamente uma trilha sonora que não estaria em um sonho. Minha mente não seria tão canalha assim. A realidade estava escancarada na minha fuça e no entanto, eu custava a acreditar. Falando em fuça, até o cachorro se deu conta que ninguém ali estava dormindo. Avistou meus olhos arregalados e... Opa, ela acordou! Com um salto magnífico à la Matrix, me invadiu com lambidas suculentas. É, não era mesmo um sonho. Eu realmente ia a Paris. 

Que roupa levar? A quem contar? Posso gritar? São tantas emoções mesmo, Roberto Carlos. Tarefa árdua essa de manter a compostura e me fingir de lúcida. No way! Eu precisava berrar ao mundo que estava a algumas horas da cidade luz. Esqueci das contas a pagar, dos compromissos já marcados, do espelho quebrado, da toalha molhada em cima da cama. Deixa isso pra lá, vem pra cá, o que é que tem?! Não tem nada mesmo, então meu Rio de Janeiro só posso lhe dizer duas lindas palavrinhas: au revoir! 

E não me venha com meditação, respiração, enrolação. Ansiedade se afaga com uma boa garrafa de vinho na Champs-Élysées, monsieur. Mas e o frio? Quanta bobagem! A brisa parisiense nada atrapalha, na verdade aconchega e é tão gostosa que fica fácil sentir a Torre Eiffel e os lindos parques de braços abertos para nós, meros admiradores.

Tão romântico quanto Shakespeare. Cada pedacinho de Paris fez brilhar meus olhos. Acelerou a pulsação, estremeceu o corpo, fez suar frio as mãos. E foi assim, como uma adolescente e os lábios mordidos de emoção, que cantei, me encantei, me apaixonei.

Nunca foi tão prazeroso me perder em uma cidade grande. Com o namorado a tiracolo, vasculhei cada esquina, me deleitei na gastronomia, fiz pose pra foto, me travesti de francesa rica. Tanta beleza ao redor que acabamos por nos tornar mais belos e apaixonados. Naquela atmosfera, o beijo é mais beijo. O amor é mais amor.

Voltei ao Rio tão gratificada que subestimei até mesmo Frank Sinatra. Atrevida como nunca, reescrevi seu famoso refrão: fly me to Paris, dear Frank. A lua está lá e é feita de mel.

quinta-feira, 3 de abril de 2014

Capítulos de uma solteira


Estar solteira tem suas peculiaridades. Terminou o namoro? Desistiu daquele casinho enrolado? Não importa em qual circunstância calhou o famoso pé na bunda e menos ainda interessa quem foi o batedor oficial do pênalti. O fato é que o jogo acabou e você entrou para a entressafra. Mas não se desespere! Estar na entressafra não é necessariamente uma tragédia. Pense bem: a oferta não é tanta mas o produto valoriza que é uma beleza. Prepare-se então para incorporar a gata mais desejada do pedaço e aprender a lidar com as especulações que vêm por aí.

Na entressafra existem três capítulos tragicômicos e inevitáveis: o revival, o avulso e o link. O revival nada mais é do que o "vale a pena ver de novo" da Globo. Tá sempre lá na sessão da tarde. Você já assistiu, insistiu e desistiu mais de 378 vezes, mas depois daquele almoço, no aconchego do edredom, ar condicionado e chuvinha na janela, aaaaahhhh é bom demais, vai! É difícil mesmo resistir. O mundo te compreende, acredite. Mas aí você se lembra da porrada que tomou naquela batida de pênalti e sabiamente resolve mudar de canal. Obrigada Net pelas 153 opções do seu combo HD neste momento tão difícil.

De volta à entressafra, chegamos ao temido sábado à noite - o dia internacional da pegação, ou não. Você quer sepultar o ex, encontrar o príncipe que o destino lhe reserva ou... No ultimato fatal da carência, decide apelar para o avulso - aquele 2º capítulo que falei lá em cima. Pois é, o avulso é tragicômico por si só. Não que seja ruim ou bom, na entressafra não ligamos muito pra maniqueísmos, mas é que o avulso é desamarrado até demais. É um intruso, um tapa-buraco pra fechar de última hora o elenco da novela. Você ainda tenta enquadrar aquele alien em algum argumento do seu roteiro, mas o cara é recém-formado em agronomia, mora em Cuiabá e é cinco anos mais novo que você. É... Haja argumento.

Sobreviveu ao revival e deu um chega pra lá no avulso? Agora é hora da produção voltar à tona. As condições climáticas já favorecem, a situação econômica está ganhando fôlego e o País em peso clama pelo fim da entressafra. Ok, rolaram umas escorregadas aí nesse meio tempo, mas você continua lá, firme e forte, com a dieta em dia, armário renovado, 100% inabalável! É neste momento, como quem não quer nada, que a amiga sequelada comenta: "sabe que você tem tudo a ver com o Marcelinho? Posso apresentar vocês?". Para tudo!!! Ooooiiiiiii? Eu aqui apelando pra avulsos de Cuiabá e você só se lembra agora de um amigo bacana pra mim??? É, baby, com vocês... Eis o link!!!!

Se o tal link vai dar samba, nunca se sabe. E mesmo se a conexão falhar, um pagodinho ao menos sempre pode rolar.

terça-feira, 11 de março de 2014

Ah o Carnaval...


Após degustar uma variedade incalculável de suor alheio, ela ensaiou um bate-papo com a companheira de bloco, mas o terceiro latão de Antártica parece ter embrulhado suas palavras. No vai e vem da multidão, uma mão peluda e colenta a agarrou com determinação pela cintura interrompendo qualquer início de conversa. É que o capitão gancho, ironicamente se encantou por sua meiga fantasia de sininho. Logo se engancharam. O rala e rola que a muvuca proporcionava deu um empurrãozinho, literalmente, para ela desencalhar, aleluia! 

Aquele mix de saliva com resto de álcool banhado em suor deu um gostinho todo especial ao beijo. A química estava tão boa que ela nem reparou no capitão já mirando de rabo de olho a abelhinha faceira que vinha toda serelepe ali atrás. Salvo pelo gongo! Antes da colmeia partir, o celular da meiga sininho vibrou. Foi só o tempo de checar o WhatsApp para o malandreco se enganchar com seu novo alvo.

Apesar de tantas adversidades, seus olhos brilharam, isso porque acabara de receber a tão esperada resposta sobre o camarote bafônico da Sapucaí. Depois de todo um trabalho de convencimento e uma dose de pressão psicológica, seu amigo que é conhecido da prima do promoter do camarote quebrou um super galho e disse que tentaria uma possibilidade de incluir seu nome na grande festa. Tudo bem que o credenciamento para "vipar" na passarela do samba parece mais a imigração dos Estados Unidos, mas como estamos no berço da malandragem, para qualquer eventualidade há sempre um jeitinho. Agora sim ela estava pronta para comemorar!

Hora de abastecer o fígado, iiiiiii lá vem aquele chato com pistola de água. É bom para aliviar o calor, grita o mineirinho cheio de graça. Ela respira fundo e avista o gatinho da Barra comprando vodca lá no Zona Sul. É a salvação! Traça uma reta e vai.

- E aí, Marquinhos, não vai pro bloco?
- Vou nada... Tá rolando uma pré na cobertura de um camarada e depois geral vai chegar lá no camarote da Sapucaí.
- Opa! Você conseguiu?
- Claro né, gata... Só to bolado porque não vou poder ir nas campeãs...
- Ah, logo no melhor dia! Mas por quê?
- Punta del Este me espera, gata... Sabe como é né, não tem como passar um carnaval sem ser no Conrad.

Os amigos do condomínio Santa Mônica se entreolharam orgulhosos até que um deles questionou: Grey Goose mesmo ou essa Ciroc aqui boladona? A Ciroc tá playssom heim! Chegar lá na cob do Xande, como né? Tirando maior onda, moleeeeeeque!

De fininho ela se manda com sua modesta Antártica em mãos e faz uma breve reflexão: voltar ou não para o bloco? Sua companheira a essa altura fatalmente virou patê no mar de gente que se amontoava na Dias Ferreira. Os seguranças do Sushi Leblon já orquestravam uma força-tarefa para proteger os clientes dos perigos do mundo lá fora. Enquanto isso, as dondocas no restaurante discutiam se paravam ou não de usar Adidas depois da marca ter feito uma alusão do Brasil às popozudas de fio-dental, um verdadeiro absurdo!

A poucos metros dali, sininho esbravejava em meio a uma legião de boazudas desfilando seus dotes traseiros e bombados seminus flertando entre si. Era mesmo o apocalipse. Ela nunca desejou tanto se tornar uma daquelas dondocas desprezíveis. Seria bem menos sacrificante estar polemizando sobre a Adidas entre um gole e outro de saquê com flocos de ouro do que ser massacrada por bundas, músculos e ambulantes. Aliás, até a Ciroc boladona do Marquinhos seria menos humilhante.

Entre cotoveladas e bundadas, ela aterrissou sobrevivente na única esquina ainda sociável de todo o Leblon. Suspirou aliviada até que um Audi super tunado estacionou na sua frente. "E aí gata, partiu Sapucaí?". Lá se foi sininho feliz e desprezível bebendo uma garrafa de Ciroc nos braços de Marquinhos. Seu camarote agora estava garantido. Ah o Carnaval...