quinta-feira, 3 de abril de 2014

Capítulos de uma solteira


Estar solteira tem suas peculiaridades. Terminou o namoro? Desistiu daquele casinho enrolado? Não importa em qual circunstância calhou o famoso pé na bunda e menos ainda interessa quem foi o batedor oficial do pênalti. O fato é que o jogo acabou e você entrou para a entressafra. Mas não se desespere! Estar na entressafra não é necessariamente uma tragédia. Pense bem: a oferta não é tanta mas o produto valoriza que é uma beleza. Prepare-se então para incorporar a gata mais desejada do pedaço e aprender a lidar com as especulações que vêm por aí.

Na entressafra existem três capítulos tragicômicos e inevitáveis: o revival, o avulso e o link. O revival nada mais é do que o "vale a pena ver de novo" da Globo. Tá sempre lá na sessão da tarde. Você já assistiu, insistiu e desistiu mais de 378 vezes, mas depois daquele almoço, no aconchego do edredom, ar condicionado e chuvinha na janela, aaaaahhhh é bom demais, vai! É difícil mesmo resistir. O mundo te compreende, acredite. Mas aí você se lembra da porrada que tomou naquela batida de pênalti e sabiamente resolve mudar de canal. Obrigada Net pelas 153 opções do seu combo HD neste momento tão difícil.

De volta à entressafra, chegamos ao temido sábado à noite - o dia internacional da pegação, ou não. Você quer sepultar o ex, encontrar o príncipe que o destino lhe reserva ou... No ultimato fatal da carência, decide apelar para o avulso - aquele 2º capítulo que falei lá em cima. Pois é, o avulso é tragicômico por si só. Não que seja ruim ou bom, na entressafra não ligamos muito pra maniqueísmos, mas é que o avulso é desamarrado até demais. É um intruso, um tapa-buraco pra fechar de última hora o elenco da novela. Você ainda tenta enquadrar aquele alien em algum argumento do seu roteiro, mas o cara é recém-formado em agronomia, mora em Cuiabá e é cinco anos mais novo que você. É... Haja argumento.

Sobreviveu ao revival e deu um chega pra lá no avulso? Agora é hora da produção voltar à tona. As condições climáticas já favorecem, a situação econômica está ganhando fôlego e o País em peso clama pelo fim da entressafra. Ok, rolaram umas escorregadas aí nesse meio tempo, mas você continua lá, firme e forte, com a dieta em dia, armário renovado, 100% inabalável! É neste momento, como quem não quer nada, que a amiga sequelada comenta: "sabe que você tem tudo a ver com o Marcelinho? Posso apresentar vocês?". Para tudo!!! Ooooiiiiiii? Eu aqui apelando pra avulsos de Cuiabá e você só se lembra agora de um amigo bacana pra mim??? É, baby, com vocês... Eis o link!!!!

Se o tal link vai dar samba, nunca se sabe. E mesmo se a conexão falhar, um pagodinho ao menos sempre pode rolar.

terça-feira, 11 de março de 2014

Ah o Carnaval...


Após degustar uma variedade incalculável de suor alheio, ela ensaiou um bate-papo com a companheira de bloco, mas o terceiro latão de Antártica parece ter embrulhado suas palavras. No vai e vem da multidão, uma mão peluda e colenta a agarrou com determinação pela cintura interrompendo qualquer início de conversa. É que o capitão gancho, ironicamente se encantou por sua meiga fantasia de sininho. Logo se engancharam. O rala e rola que a muvuca proporcionava deu um empurrãozinho, literalmente, para ela desencalhar, aleluia! 

Aquele mix de saliva com resto de álcool banhado em suor deu um gostinho todo especial ao beijo. A química estava tão boa que ela nem reparou no capitão já mirando de rabo de olho a abelhinha faceira que vinha toda serelepe ali atrás. Salvo pelo gongo! Antes da colmeia partir, o celular da meiga sininho vibrou. Foi só o tempo de checar o WhatsApp para o malandreco se enganchar com seu novo alvo.

Apesar de tantas adversidades, seus olhos brilharam, isso porque acabara de receber a tão esperada resposta sobre o camarote bafônico da Sapucaí. Depois de todo um trabalho de convencimento e uma dose de pressão psicológica, seu amigo que é conhecido da prima do promoter do camarote quebrou um super galho e disse que tentaria uma possibilidade de incluir seu nome na grande festa. Tudo bem que o credenciamento para "vipar" na passarela do samba parece mais a imigração dos Estados Unidos, mas como estamos no berço da malandragem, para qualquer eventualidade há sempre um jeitinho. Agora sim ela estava pronta para comemorar!

Hora de abastecer o fígado, iiiiiii lá vem aquele chato com pistola de água. É bom para aliviar o calor, grita o mineirinho cheio de graça. Ela respira fundo e avista o gatinho da Barra comprando vodca lá no Zona Sul. É a salvação! Traça uma reta e vai.

- E aí, Marquinhos, não vai pro bloco?
- Vou nada... Tá rolando uma pré na cobertura de um camarada e depois geral vai chegar lá no camarote da Sapucaí.
- Opa! Você conseguiu?
- Claro né, gata... Só to bolado porque não vou poder ir nas campeãs...
- Ah, logo no melhor dia! Mas por quê?
- Punta del Este me espera, gata... Sabe como é né, não tem como passar um carnaval sem ser no Conrad.

Os amigos do condomínio Santa Mônica se entreolharam orgulhosos até que um deles questionou: Grey Goose mesmo ou essa Ciroc aqui boladona? A Ciroc tá playssom heim! Chegar lá na cob do Xande, como né? Tirando maior onda, moleeeeeeque!

De fininho ela se manda com sua modesta Antártica em mãos e faz uma breve reflexão: voltar ou não para o bloco? Sua companheira a essa altura fatalmente virou patê no mar de gente que se amontoava na Dias Ferreira. Os seguranças do Sushi Leblon já orquestravam uma força-tarefa para proteger os clientes dos perigos do mundo lá fora. Enquanto isso, as dondocas no restaurante discutiam se paravam ou não de usar Adidas depois da marca ter feito uma alusão do Brasil às popozudas de fio-dental, um verdadeiro absurdo!

A poucos metros dali, sininho esbravejava em meio a uma legião de boazudas desfilando seus dotes traseiros e bombados seminus flertando entre si. Era mesmo o apocalipse. Ela nunca desejou tanto se tornar uma daquelas dondocas desprezíveis. Seria bem menos sacrificante estar polemizando sobre a Adidas entre um gole e outro de saquê com flocos de ouro do que ser massacrada por bundas, músculos e ambulantes. Aliás, até a Ciroc boladona do Marquinhos seria menos humilhante.

Entre cotoveladas e bundadas, ela aterrissou sobrevivente na única esquina ainda sociável de todo o Leblon. Suspirou aliviada até que um Audi super tunado estacionou na sua frente. "E aí gata, partiu Sapucaí?". Lá se foi sininho feliz e desprezível bebendo uma garrafa de Ciroc nos braços de Marquinhos. Seu camarote agora estava garantido. Ah o Carnaval...

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Overdose de selfie


Uma garfada e um flash. Já faz tempo que rende no Instagram os cliques das comilanças nossas de cada dia. Foto no espelho do elevador também bombou na timeline e por pouco me fez desistir de vez da rede social. Hashtags sóquenão, aboutlastnight e zilhões de outros blábláblás similares também me reviraram os olhos de tanto tédio,  um sentimento rotineiro na minha vida em tempos de busca ilimitada pela autopromoção.

A multiplicação de narcisos na tela de nossos celulares é tão over que nasceu o termo "selfie" para dar nomes aos bois. Mas a boiada é tão numerosa que já inventaram o "usie" para nomear fotos de narcisos em grupo.

Os porteiros de plantão, aqueles que não se cansam de dar bom dia e boa noite ao Facebook lideram o topo da minha lista negra. Já os Galvões Buenos que narram cada minuto do jogo do Flamengo são definitivamente a nova praga do século 21. E as frases de efeito, lições de moral ou indiretas para o ex? Essas são atemporais. Infinitas enquanto durem. Um clássico da dor de cotovelo, mas e eu com isso?

A autopromoção realmente parece ter se tornado o câncer das redes sociais, talvez porque elas tenham aberto uma enorme janela ou melhor, um palco mundo para os carentes e inseguros por natureza. Aqueles que necessitam deliberadamente de público full time cansam a beleza de si mesmos. É tão exaustivo que não há rostinho bonito que fique bem na foto depois de metralhar a timeline dos outros com sua auto-imagem. Nesse caso, a bula do Simancol é categórica: selfie pode causar entre infinitos outros males, até mesmo overdose. Na língua deles, ficaadica!

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Espelho, espelho meu


Quebrei um espelho. Um efeito devastador congelou célula por célula até que a minha respiração simplesmente parou. Foram segundos de extremo terror. Então meus olhos ainda estremecidos conseguiram forças para piscar e enfim, o tico e o teco decidiram funcionar. A mensagem é quase o apocalipse: acredite ou não, são sete anos de azar. É... A ficha caiu e em seguida, as lágrimas também. Chorei, esperneei, xinguei e por fim me perguntei: e agora?

Sim, eu sou supersticiosa. Lei de Murphy é habitué na minha rotina. Me esforço para lidar com isso desde que aprendi a dirigir e me dei conta de que não adianta mudar de pista porque a do lado sempre vai andar mais rápido que a sua. Até aí tudo bem, mas sete anos já é overdose de uruca para uma só pessoa, no caso para a minha pessoa, o que é muito pior. 

Nessas horas um legítimo supersticioso corre pra internet. É preciso descobrir o que pode amenizar tanta má sorte e pra isso vale tudo, simpatia, feitiço, reza braba, vai depender do nível do seu desespero. É aquela velha história, em momentos como esse, meu caro, só o Google salva!

Depois de me entediar com infinitas receitas de répteis, plantas silvestres e sementes selvagens que apenas o preto velho ouviu falar, ponderei minha angústia: "garota, cai na real! Você vai mesmo arrumar um sapo e ficar com ele até meia-noite só por causa de um espelho quebrado?". Pois é, a razão falou mais alto, mas no fundo o efeito da superstição já estava lá, plantado e pronto para crescer dentro de mim.

Então diga-me espelho, espelho meu, precisava se quebrar todo para que eu visse meu cão ser atacado por um pastor alemão, perdesse meus óculos preferidos, brigasse com as melhores amigas, me enrolasse mais ainda com um romance perdido e ainda ganhasse de brinde uma enxaqueca enlouquecedora por dois dias? Isso para não dizer outros episódios impublicáveis aqui.

Decidi contornar a situação. Mudei o caminho do trabalho trocando o marrom imundo do Rebouças pelo azul da orla. A beleza carioca me embebedou de esplendor. Meus olhos espelharam a paz da natureza no retrovisor e nada se quebrou. Esqueci do sapo, do espelho rachado, dos momentos azarados. Apaguei a mente e segui em frente. Sem espaços para crendices. Apenas inteira, maravilhada, energizada. O Rio me curou. É contagiante. Morando aqui, espelho, espelho meu, nem preciso perguntar se existe alguém mais sortuda do que eu.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Um amor e um plim plim


Era a quinta vez que ela olhava o celular para checar as ligações, SMS, WhatsApp, Facebook, todas as inimagináveis formas de contato que a tecnologia permite. O dia já escurecia sufocante e lá estavam seus dedinhos incansáveis deslizando sobre a tela do iPhone. A angústia a carregou em um embalo torturante por horas e horas, quando então, às vésperas da meia-noite, plim plim! Ecoou no quarto um som de mensagem. Opa! Só pode ser ele!!!

"Seu celular foi escolhido para concorrer a casas, carros e iPads! Basta responder SIM para entrar no sorteio". Incrédula, leu múltiplas vezes palavra por palavra até que se perguntou: me afogo no travesseiro ou me debulho em uma panela de brigadeiro? Não existe nada mais cruel do que isso. Foi uma bomba de frustração, algo comparado a Hiroshima e Nagasaki.

Dias se passaram e o celular parecia estar em coma. Dopado e inerte, porém vivo, o que ainda alimentava a expectativa incessante do filho da mãe acordar e emanar um novo plim plim. 

Atrasada como de rotina, ela saía esbaforida do mercado atolada de sacolas e foi nesse exato instante, absolutamente impossibilitada de usar qualquer uma das mãos, que o plim plim surgiu. Um respiro de alívio massageou célula por célula de seu corpo. Incrível como um simples som pode te levar do inferno de uma fila de supermercado até o nirvana de um amor supostamente correspondido. Foi mágico...

Apertou o passo até em casa para se livrar das sacolas e responder o quanto antes que topava sair para jantar. Afinal, era óbvio que o plim plim significava um convite para aquele japonês especial do Leblon. Tava na cara.

Mal adentrou a sala de casa e jogou tudo no chão, ávida e sorridente para falar com seu amor. Digitou a senha para desbloquear a tela e a mensagem pulou no visor: "responda SIM e assine o quiz para concorrer a uma super moto zero quilômetro! Não coma mosca".

Mosca ela não comeu, mas cuspiu muito marimbondo.