segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Ervilha zona sul


É quase um ritual cabalístico. Depois de inflar cada milímetro de músculo sob a vigília do personal, ela respira aliviada e mentaliza a versão fitness dos alcoólicos anônimos: mais um dia de malhação vencido, obrigada senhor!

No caminho de casa, um bate ponto no BB Lanches para dar aquele check básico na turminha que estiver dando pinta por lá. De quebra ainda pede um suco de abacaxi com hortelã que ela viu no instagram da nutricionista mais pop do momento. Pronto, vamos aos trabalhos.

Um banho de uma hora e mais duas para dar aquele levante no visú. Agora sim vai fazer bonito no Baixo Gávea. O problema é que durante essa maratona a consciência começa a oscilar: "o dia todo à base de rúcula e agora vou me estragar no chopp?". Por outro lado, o diabinho brilhantemente argumenta: "a semana toda no leg press e na cadeira adutora pra tentar tirar esse culote desgraçado. E aí, saiu? Não saiu! Então no mínimo eu mereço uma Stella gelada e um hot philadelphia do Sushimar". É... o diabinho nocauteou. Então partiu BG!

Lá foi ela em mais uma sexta-feira encontrar as mesmas amigas de sempre no mesmo lugar de sempre e ver e ser vista pelas mesmas pessoinhas de sempre. Apesar de ser mais do mesmo, sua perseverança é tão forte que chega a ser admirável, isso porque a fé inabalável de que encontrará seu príncipe naquela lisura mais do que manjada é uma chama que nunca se apaga.

Ela e sua patota são contaminadas por um comportamento claramente contraditório e o mais grave é que elas sabem disso, mas é a tal da perseverança que falei lá em cima. Nessa "ideologia", digamos assim, as adeptas insistem em frequentar os mesmos lugares porque apesar de estarem em um local onde a chance de conhecer gente nova é abaixo de zero, a simples presença das pessoinhas de sempre é essencial para que lá elas se sintam confortáveis. A mensagem é matadora: "opa, esse ambiente faz parte do meu meio social, então tá tranquilo, é aqui que eu fico".

A jogada é meio confusa mas não chega a ser radical como parece. O que elas consideram um "bom ambiente" é o mix de conhecidos com umas pinceladas de novos rostos só para dar aquela movimentada na social. Um carinha diferente daqui, umas figurinhas repetidas dali, alguns chopps na mente pra quebrar o gelo e pronto, os grupos começam naturalmente a interagir. É um tal de fulano que sabe quem é ciclano, primo de beltrano até que um deles reconhece um camarada lá daquele jogo no Maraca quando geral foi comemorar aonde mesmo??? No BG, of course. E quando o assunto é futebol, irmão, até carioca fica amigo de paulista.

E como ela e sua panela não querem saber de festa estranha com gente esquisita (ops! Gente nova eu digo), a Renatinha Bittencourt já arrumou a boa da noite.

- Amiga, vai ter festa do Marcelinho Dias. Vou botar seu nome na lista. Bora?
- Quem? O ex-peguete da Biba Fraga?
- É! Ele é primo do Beto Dias. Vai geral conhecido!
- Partiu!

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Vento ventania


Tudo que ela queria era a ajuda de um vento bem forte e longínquo para dar asas às cinzas de 2013. Tudo que ela queria era desapegar do passado e não mais esperar pelo futuro, apenas permitir que o presente fizesse jus ao nome e finalmente se tornasse um presente. E mesmo com todo o fervor da estufa carioca em que tentamos sobreviver neste verão, um vento passou, sacudiu e balançou. Parece até música baiana, eu sei, mas não me reprima, foi levantando a poeira que 2014 chegou.

No mês e no ano em que completará três décadas de dilemas, ela abriu as portas de um novo lar. Agora com mais contas a pagar e dívidas para quitar. No entanto, uma surpresa! Ela está feliz por ter que ir ao banco pagar a Light. Quem diria... A luz que não sai mais do bolso do papai chegou para iluminar o espírito do novo apê e dela mesma. É isso, o grito de independência enfim foi dado.

Que ventania é essa que está batendo? As massas de ar em 2014 estão realmente revoltas, sente só como foi o clima apenas em janeiro: nos primeiros dias do ano ela pegou conjuntivite e foi nocauteada por uma gripe. A emergência da Clínica São Vicente a fez esperar três horas por um atendimento pífio de quatro minutos e mesmo assim, nenhum sinal de irritação. What???! Não fez a viagem que tanto sonhou de ano novo com as amigas e muito menos planejou qualquer festa de celebração, porém sua angústia cativa pré-reveillon desta vez não deu as caras. Huuummmm... Ressuscitou um romance que tudo indicava ter ido pelo ralo em 2013, mas nada é tão bom quanto parece porque ainda passa longe a possibilidade disso que não sei nem o nome se tornar algo mais sério. E como ela está? Nem melhor, nem pior, apenas indiferente. Uuuuuoooouuuu!!! Teve que dar adeus à exclusividade diária e a todo o conforto que a empregada da família lhe proporcionava e ainda assim não se preocupou em aprender a cozinhar e nem mesmo a lavar roupa. Totalmente easy going! Perdeu o ritmo da academia conquistado a duras penas para o verão e ainda ganhou a bênção de mais umas 387 celulites no bumbum graças a um tormento chamado Talho Capixaba que chegou ao seu bairro para assombrar sua ilusória dieta. E você acha que agora ela está se lamentando em frente ao espelho??? Imagina... O quinto pão de chocolate do Talho já está guardado para a larica dessa tarde.

Pois bem, ainda não é o fim deste blog, mas a meteorologia prevê para este ano a evaporação dos dilemas com paranoias isoladas e pancadas de felicidade para toda a região. Mas não esqueça do filtro solar porque os ventos de 2014 sopraram as nuvens e trouxeram enfim, o sol para a todos nós iluminar. 

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Convite indiscreto

Publicitário não é mole mesmo né? Os caras têm a audácia de estampar a musa Camila Pitanga para elogiar algo unanimemente inelogiável. É que no calar da noite deste louco ano de 2013, ela deu a cara a tapa para falar bem de quê mesmo??? Da Caixa Econômica Federal, minha gente! Oh my god!!! Com o sorriso mais lindo e enganador, Camila faz o convite: "vem pra Caixa você também!". Você, meu caro leitor, já experimentou entrar nesse aposento do apocalipse que aqui vos falo? 

Pra começo de conversa tenha certeza de que o abacaxi que você tiver que solucionar naquele reduto de Lúcifer definitivamente não será resolvido no mesmo dia. Aliás, solucionar não é bem uma palavra que se encaixe em um texto sobre a Caixa, certo? Mas se essa era sua esperança, esquece. Terá que ir e voltar inúmeras infernais vezes e sempre por causa de dois motivos triviais: o sistema e o funcionário.

Tenho três hipóteses sobre o sistema da Caixa. Penso seriamente que ele talvez sofra de alguma fraqueza crônica nos ossos, talvez falta de cálcio, ou é provável que tenha algum vício escuso por alcoolismo e quem sabe tenha ainda um perfil meio estabanado. Pensa bem... Quantas vezes você já não teve que entubar, mesmo que puto da vida, a desculpa de que "sorry, mas o sistema CAIU"? Sei bem como é...

Mas se você achava que o sistema é que era o cara mau dessa história... Então vou te relembrar daquele funcionário de 20 anos de casa da Caixa Econômica Federal. Já reparou como são todos iguais? Realmente incrível!

Na Caixa de Ipanema ou de Bangu, você vai se deparar com uma criatura (certamente um líder de cultos de sadismo) que passa cinco dias por semana prostrado em sua mesa cacarecada. Seu ofício é contabilizar os minutos de tédio da sua longa carga horária de 10h às 16h. Em duas décadas de funcionalismo público, seus óculos nunca foram vistos sem as lentes engorduradas da coxinha de frango que devora nas tardes do árduo trabalho. A camisa bege de botão e manga curta parece ser referência na instituição. Todos são fiéis ao estilo, inclusive à tradicional mancha de café, que também já faz parte do vestuário.

Agora prepare o Seu Saraiva interior quando tiver que se digladiar com esse indivíduo. Ele vai te pedir original e cópia de TODOS os seus documentos, inclusive dos seus pais, avós e tios de terceiro grau. Obviamente, nessa vasta documentação você esquecerá de alguma coisa. Pesquisas inclusive comprovam que o documento mais esquecido entre os brasileiros ao "tentar" resolver problemas na Caixa, no Banco do Brasil ou no Detran é o papelzinho de votação das últimas eleições. Aliás, daquele tamanho só pode ter sido sordidamente projetado para ser perdido. Mas isso é Brasil, darling. Faz parte do show.

- Senhora, muito bom que dessa vez tenha conseguido toda a documentação para estarmos resolvendo seu problema (eles adoram gerúndio). Pena que ainda assim esteja faltando o seu papelzinho de quitação eleitoral (um sorriso perverso se desenha em seu rosto).
- Isso significa que terei que voltar nesse inferno, pegar aquela maldita senha, me entulhar no meio daqueles 347 infelizes da fila e olhar pra sua sua camisa suja de café de novo???
- Exatamente, senhora, mas fique tranquila porque estaremos solucionando seu problema (gerúndio até morrer!).

A Caixa nada mais é do que uma odisseia ao inferno. Um Brasil maquiado de Camila Pitanga. Mas o convite está feito. E aí, vem pra Caixa você também? 

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Dear Lulu


Não me diga! Ele é #MaisBaratoQueUmPãoNaChapa??? Mas e aquela pinta toda de bom partido? Ao menos é inegável reconhecer que o cara tem mesmo um #ShapeNotaDez, #MãosFortes e #MaxilarMarcado, se bem que... Já dizia o velho ditado, "beleza não põe mesa" e vamos combinar que um babaca com #OlhosClaros tem cotação mais baixa que o Eike Batista na Bovespa. Ah mas pensa bem... Ele vai me levar pra #ConhecerOMundo, #VerOPôrDoSolNaPraia, vamos #ChorarDeTantoRir e ainda #DormirDeConchinha. É, Lulu, ele é  #OCara!

Estou achando que vai rolar até um date nesse fim de semana. Imagina! Vai me buscar em casa com o #CarroDoAno, me receber com aquele #SorrisoIncrível e ainda vou ganhar #Covinhas de bônus! Aaaahh, Lulu, para tudo! Ele é a prova viva de que existe sim #PríncipeEncantado! 

Soube que o histórico também favorece. Afinal de contas, o cara é #BemCriado, um pequeno detalhe mas que valoriza quase que em dobro seu passe, até porque sogro e sogra bacanas são tão raros quanto #HomemDeUmaMulherSó, aliás não vi essa hashtag no perfil dele, Lulu. Você esqueceu de marcar esse tópico ou é por isso que ele não vale nem a torrada que comi hoje na padaria?

Tá certo que o pão na chapa não me saiu muito mais do que um real, mas juro que aquela manteiguinha derretida com as bordas levemente torradas estava melhor do que muito beijo de #LábiosDeMel. Ta vendo só, dear Lulu, dependendo da perspectiva, #MaisBaratoQueUmPãoNaChapa talvez nem seja tão pejorativo assim. Acho que já está na hora de você se dar uma atualizada lá na Apple Store.

E nem pense em discutir a relação com o Tubby heim! Parece que o cara já vai chegar cheio de sangue nos olhos, possuído por sede de vingança. A nossa brincadeira vai deixar de ser leve e divertida para virar testemunho em mão de advogado. Tudo bem que homem costuma sofrer de um certo delay para sacar o bom humor das mulheres e dessa vez o retardo foi até longe demais. Pode inclusive ter sido mesmo bola fora sua, Lulu, mas é que precisa de alguém para explicar aos neurônios masculinos que nenhum #GraduadoEmPornô (e qual deles não é?) vai deixar de conquistar aquela gata porque o aplicativo não foi lá muito legal com ele.

Desculpa mesmo te desmerecer, dear Lulu, mas você não passa de um bando de jogo da velha amontoado. Uma brincadeirinha tão antiga e bobinha... Uma pena que os bolinhas não levaram na boa. Tomara que um dia possam entender que não existe tecnologia no mundo ou até mesmo mesa de bar que desbanque o efeito do olho no olho. Mais do que isso, não há nota zero ou dez que impeça o amor de acontecer. O resto é apenas #DiversãoSemLimites.

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Adeus


Um veludo negro certa vez me encantou. Foi mesmo amor à primeira vista, não apenas para mim mas de fato arrebatava olhares por onde passava. A negritude de seus pêlos era tão impactante que refutava qualquer sentido lógico ao se revelar o escuro mais reluzente da natureza. Preto que brilhava, noite ensolarada, escuridão iluminada. Um tanto de antônimos que juntos descrevem com clareza a desconcertante beleza da linda cadelinha.

A pequena canina era a prova concreta de que nos menores frascos estão realmente os melhores perfumes. A delicadeza feminina de cada músculo sinuosamente desenhado deslumbrava juízes, treinadores e leigos como eu. Uma baixinha charmosa que esbanjava sorrisos e rebolados ao desfilar. Tinha tanta vida que esta vida acabou curta, muito curta. Talvez ela fosse especial demais para essa mera dimensão terrena. 

A cada dia estou mais certa de que os anjos ficam pouco tempo como matéria entre nós. Talvez tenham muitas tarefas no céu já esperando por eles e assim, temos que deixá-los partir. Certamente chegou a hora de ela voar mais alto. As nuvens serão sua nova passarela e as nossas noites nunca mais serão escuras. 

Amém.