sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Um brinde à saudade



O Bracarense fervilhava no clássico domingo pós-praia com boêmios aos montes regados do melhor chopp do Rio, todos tinindo de felicidade no melhor estilo carioca de jogar conversa fora, falar alto, rir à vontade e brindar com os companheiros de birita. E lá na muvuca das mesinhas amontoadas estava eu, minha querida mãe, meu irmão e nossos respectivos ex-namorados.

Rodada de 5 chopps, bolinhos de camarão, mais uma rodada, caldinho de feijão, mais 3 rodadas, a sede era grande e dá-lhe bolinho de camarão! Mais 4 rodadas, boteco fechando, mais 5 rodadas, garçons já faxinando a calçada. Pediram a saideira, alguém começou a cambalear, olha lá! Cadê o chorinho? Desespero geral com o valor da conta! Bebemos tudo isso? Não tem problema, todo bêbado se acha rico então vamos pedir a saideira do chorinho! Praticamente expulsos pelos garçons, caixinha para eles, merecem. E agora??? Partiu praia! E daí que já eram quase 2 horas da manhã? As ondas estavam lá ainda, à nossa espera, era nosso dever comparecer. Como um abraço de amigo, elas acalmaram e nos deram de presente uma piscina de água salgada à luz da lua. Nós, os cinco loucos foragidos do manicômio, cantamos, pulamos e até arriscamos um samba no balancê do mar do Leblon. Uma felicidade contagiante, um momento inesquecível. 

Algumas pessoas dizem que os saudosistas são reféns do passado. Admito que nostalgia nem sempre é bom, mas reviver, mesmo que por pensamento, lembranças tão felizes refresca a alma e inspira novas aventuras. Nesse eterno dilema entre passado e presente, prefiro pedir mais uma rodada de chopp com direito a chorinho dos deliciosos momentos. E na saideira, um brinde à saudade para que seja sempre prazerosa e nunca se acabe.

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Hey, what's up?


É interessante como as pessoas se cumprimentam, já reparou? É um diálogo de apenas duas frases feito somente de uma mesma pergunta.

Uma cena comum: estou passando por algum lugar, que aliás é totalmente irrelevante, provavelmente mexendo no celular como de costume até que avisto alguém conhecido.

- Oi, tudo bem?

E ele "responde": - Oi, tudo bom?

E pronto, assim acaba a cena esquizofrênica. A pergunta é exatamente a mesma e a resposta é nula. E o pior, continuo caminhando como se fosse super normal perguntar algo e ser retrucada com a mesma pergunta. A recíproca é verdadeira. A única variação possível é trocar o "tudo bem" por "tudo bom" e olhe lá.

Quando me dei conta de tal insanidade, realmente me incomodei e resolvi quebrar paradigmas, revolucionar o mundo, atravessar as barreiras impostas pelas leis sociais até que... pronto, o momento ficou fadado ao mistério. Eu finalmente respondi que "sim, está tudo bem comigo!". Ficamos nos olhando durante uns dois segundos.

Ele mexia as sobrancelhas como se não entendesse o que acabou de se passar. Decidi ir mais adiante.

- Mas e você? Não me respondeu. Tudo bem?

As sobrancelhas se revezavam numa espécie de sacolejo coreografado. Se pudesse se ver ia perceber que ele sim era o estranho da cena e não eu. Sem muita saída para fugir do silêncio constrangedor, disparou de uma só vez:

 - Estou bem.

Baixou os olhos e nitidamente estarrecido com a situação inesperada continuou seu caminho e voltou a teclar em seu iPhone, onde provavelmente embalava livre e solto nas conversas do whatsApp.

Ri sozinha até que instantaneamente o som de uma nova mensagem sinalizou no meu celular. Ah, um novo whatsapp... Não é que era o tal conhecido?! Olhei para trás e o vi já de costas a uns bons metros de distância mas agora, devidamente protegido pela telinha do telefone.

- Oi Fê, desculpe estava com pressa. Mas agora posso falar. Estou bem sim, entrei num novo negócio, está dando muito certo. Ah e você não sabe! Minha irmã casou e está gravida! Vai ser um menino. Nós acabamos de voltar de Nova York, foi a família toda. E você? Me conta como está!

Quanta desenvoltura para uma conversa por celular, não? Pois bem... Quer saber qual foi a minha resposta? Não há muito o que pensar. Se a pergunta foi "e você? Me conta como está", nada mais normal que responder:

- E você? Me conta como está!

As sobrancelhas certamente voltaram a sacolejar.

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Intocáveis tocantes



Ele falou que não gostava de arte e que música clássica lembrava Tom e Jerry. Ele tirava onda de valentão, mas esperneou de medo ao voar de parapente. Ele ria dos outros mas chorava de si mesmo. Embarquei em cada vírgula do roteiro e me vi rindo e chorando também, junto com ele. Uma overdose de sentimentos, de música de qualidade, de histórias de verdade, de lição de vida e ensinamentos. "Intocáveis" é definitivamente uma obra-prima, um exemplo de cinema, que muito ao contrário do próprio nome, toca sim e toca lá no fundo, de forma inesperada e gostosa.

Aproveite. É bonito de se ver e sentir. Não é 3D, não tem mil efeitos especiais, mas a experiência sensorial que os "Intocáveis" permite ao público é um verdadeiro presente. Uma história que poderia ser muito triste, mas quebra paradigmas e nos faz morrer de rir, sem deixar em nenhum momento a emoção de lado. É uma combinação perfeita e tão sutil que entramos numa montanha-russa de sentimentos, fluindo da graça às lágrimas de forma tão natural e delicada, que só nos resta usufruir.

A lição que fica é simples, mas genial: ria mais de si próprio. Na nossa rotina escrachada acabamos esquecendo do sábio conselho. Mas não apenas por isso e sim por toda a trama em si, é um filme digno de oscar. E se não conseguir ganhar, vou chorar sim. E depois com certeza, sorrir.

domingo, 26 de agosto de 2012

Achados e perdidos


Pode ter certeza! Quando uma mudança muito grande acontecer na sua vida, várias outras mudancinhas ou até revoluções (depende do seu nível de sorte) acontecerão ao mesmo tempo, talvez com diferença de dias só para te dar uma pequena folga. Mas no fim das contas, em uma semana sua vida vira do avesso e haja força para aguentar.

A imprevisibilidade da vida nos deixa sujeitos a isso mesmo. Se as transformações forem boas, a ruptura com a rotina nos dá mais chão e vontade de viver. Essa é umas das graças da vida. Mas outras mudanças muitas vezes nos colocam contra a parede como se estivessem dizendo: você vai conseguir superar? 

Parece que estamos constantemente sob teste. Precisamos ter a sabedoria suficiente para enxergar a beleza das transformações positivas e aproveitá-las sem modéstia. Por outro lado, precisamos ter muito estômago para engolir as tristezas, além de pernas fortes e ágeis para seguir em frente.

As perdas sem dúvida são os maiores embrulhos com que nos deparamos. Eles bloqueiam o estômago e tomam para si todo o ar que sobrou no pulmão. Mas o coração ainda lateja, às vezes lateja até demais num acelerado que parece querer ultrapasar o limite do seu corpo de qualquer jeito. E é isso que nos obriga a resistir. Por mais incômodo que seja, ele está apenas te mostrando que a vida não parou. Pelo contrário. Enquanto você se esforça para conseguir respirar pelos ínfimos vácuos que o embrulho esqueceu de tapar, a vida corre lá fora porque o mundo e até mesmo o seu próprio mundo não se limitam ao seu corpo. Existem muitas caixinhas de surpresas fora do seu quintal, sem embrulho nenhum, livres e abertas para você respirar melhor.

Mas e a minha perda? Aonde ela se encaixa nesse raciocínio anatômico? Não é tão simples assim. Posso até recuperar meu pulmão, mas e as lembranças que não querem deixar meu pensamento? Dizem que nesse caso, a resposta é única e sinceramente, muito cruel: o tempo. 

A dor da perda de um amor por exemplo, não conta com o tempo convencional que usamos de parâmetro. É uma outra cronologia, sem lógica e totalmente feita de descompassos. Pode durar dias, anos ou uma vida inteira, como foi o caso da minha mãe. Está fora do nosso controle. Seria bom se existisse um "achados e perdidos" para os amores desiludidos.

É preciso fechar os olhos e apenas sonhar com dias melhores. Com certeza eles virão.

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

No woman no cry


Eu sei que estou longe, distante demais das minhas confidências rituais. É que alguns dilemas irreversíveis tomaram conta da minha agenda.

Nada como chegar na beira dos 30 e sentir seu bolso ainda vazio e as pernas flácidas. Ok, não estou louca ainda, sei bem que dinheiro e flacidez teoricamente nada tem a ver. Teoricamente, vale ressaltar... Sim porque completar três décadas de vida correndo mais do que nunca atrás de uma ilusória carteira recheada e coxas torneadas é o que mais se vê por aí. 

O grande auge do dilema acontece quando você se dá conta de que a esteira acelerou mais do que devia. Você perdeu o timing e agora, o tempo é curto demais para se recuperar. Mas vou parar de falar entre linhas. O fato é que no momento chave de uma frustração, você há de concordar comigo que a primeira reação de um ser humano (supostamente com sentimentos) é de tristeza. Só que mesmo às vésperas dos 30 anos, continuo pulando a etapa da tristeza, da raiva, da decepção e de todos esses clichês mexicanos e vou direto, sem escalas, totalmente non stop, para a última das últimas etapas: o mais autêntico e assustador momento do chororô descontrolado.

Para confirmar minha tese, descobri outro dia conversando com meu pai, que costumo pular as etapas sentimentais desde que vi o mundo pela primeira vez. Era mais ou menos assim: eu olhava para ele e chorava. Via meu irmão e chorava. Via meus avós e chorava. Via o sol, a nuvem, o mar, um lindo cachorrinho felpudo e, adivinha? Sim, eu chorava. Inclusive, um tio doido me chamava de Fernanda Cachoeira. Não que eu tenha alguma coisa a ver com aquele indivíduo boa gente lá da CPI, mas sem querer ser dramática, já sendo, passei minha vida toda entre lágrimas e lenços de papel. Até que na contagem regressiva dos meus vinte e tantos anos, ouço dele, meu pai, o cara que me trouxe ao mundo praticamente para chorar, a seguinte frase: minha filha, diante de uma frustração alguns choram, outros simplesmente vão vender lenços de papel. 

Fiquei com a pulga atrás da orelha. Afinal, eu fui e ainda sou a maior consumidora de lenços de papel da história. Não só por causa da minha, digamos extrema sensibilidade emocional, mas também graças à rinite alérgica que não me larga há anos. Mas não importa o motivo, chegou a hora de mudar esse jogo. Não que eu queira vender lenços para consumidores top como eu, mas aprender a lidar com os problemas sem apelar para a autopiedade pode ser um bom início para entrar na maturidade dos 30 anos.

Definitivamente não vou mais chorar com as frustrações e muito menos, com cachorrinhos felpudos, mesmo que eles estejam sozinhos e abandonados. Só peço por favor, que não me venha mostrar meu extrato bancário porque aí já é golpe baixo. Afinal, toda cachoeira, mal ou bem, sempre acaba em riacho.