quarta-feira, 30 de março de 2016

Whatafuck?

*História baseada em fatos reais.


Agachei e levantei uma das pernas como um cachorro fazendo xixi. Atrás de mim, alguns marombas se divertiam com tipos variados de flexão. Foi mais que constrangedor, foi desesperador. Eu tinha 12 quilos presos à perna e como se este fardo já não bastasse, eu ainda deveria levantar a porra da perna múltiplas vezes até eu ter certeza de que morri. 

No ápice de meu pré-óbito, a personal trainer fascista gritou: Você quer a bunda na nuca ou não quer? Vamboraaaaa!!! De fato, eu queria a bunda no céu se fosse possível, mas dessa vez quem quase alcançou o paraíso celestial fui eu por inteira, com bunda, alma e tudo que tenho direito.

Sempre tive curiosidade em saber como seria o céu, mas nunca pensei que chegaria lá carregando 12 quilos e nem que deveria me massacrar pra isso. Me senti como Jesus Cristo crucificado, com a única diferença que o motivo da minha morte era puramente estético, realmente nada a ver com religião.

A escuridão repentina me fez pensar que a academia deu o calote na Light, mas aí minhas pernas bambearam e me senti em uma centrífuga desnorteada. Tive certeza: eu definitivamente morri. Minha alma já ameaçava descolar do corpo, quando um ser assustadoramente branco me sacolejou. Ela gritava enlouquecida, o que me irritou profundamente, afinal sempre ouvi dizer que o céu era o reino da paz. Como podia um fantasma tão histérico?

Abri bem os olhos e me dei conta de que foi tudo uma farsa. Eu não tinha morrido. Além disso, a branquela descontrolada não era um fantasma, era simplesmente a Julianne Moore. Oi??? Calma, eu não morri, mas pelo visto, surtei. Pisquei repetidamente mas cada vez que arregalava os olhos realizava que sim, estava diante de mim uma atriz de Hollywood, ganhadora de Oscar e com estrela na Calçada da Fama.

Imóvel eu estava, imóvel eu permaneci. Cheguei a pensar que talvez minha academia, reduto de marombados e estrelas de Hollywood, seria sim a casa de Deus, mas um banho de água gelada me acordou de vez pra realidade. A personal que antes gritava "glúteo na nuca até a morte", agora me inundava com litros de água implorando por minha ressurreição.

Foi então que recompus a calma e a coragem a tempo de olhar bem no fundo dos olhos da suposta atriz e perguntar: sabia que você é a cara da Julianne Moore? Ela retribuiu o olhar fixo e disse: I'm sorry, darling. I don't speak Portuguese.

Whatafuck???

quarta-feira, 13 de maio de 2015

Fora haole!


Kadu Legend, nome e sobrenome do fera mais disposição do Lebronx. Não tem kaô, o cara arrepia no surf e sabe disso. Sim, é marrento mérmo, mas é porque pode. Ninguém estronda no mar como ele. É soltura total, estileira braaaaaba, papo de Delfim Moreira em peso virar plateia.

Ultimamente o quintal de casa era só alegria. Kadu felizão tava gigante no mar clááááássico no Pontão. Dropou, rasgou, desafiou a lei da gravidade. De quebra, o parceirinho da GoPro também representou nas fotos da galera, que vibe! Nem brotou haole pra botar pra ralar. Só moleque bom caindo, a irmandade toda reunida. E depois daquele tubo ia rolar mais o quê? O açaí neuróóóóótico do BB Lanches pra ficar de rei. Ah, agora eu vi vantagem! Issaaaaaaaa!!!

- Coé Marcondes, capricha aí no açaí porque hoje é explosão, meu brother!

Opa! Parece que Marcondes acordou de ovo virado. Enquadrou o moleque na nova regra da casa: primeiro paga, depois pede. Iiiii mané... Deu ruim. Embaçou legal no domingão do Leblon.

Pá, pow! Terror e pânico na Ataulfo de Paiva. Qual foi, parceiro? Tá me tirando pra otário? Quédizê, vagabundo compra açaí pra mais de 10 anos aqui nessa bagaça, dá maior moral na caixinha aí pra rapeize e tu vem agora com esse kaô de pagar primeiro?!

A fila do caixa era um mar de gente. Mar este em que definitivamente Kadu não estava disposto a cair. Uma penca de paulistas e mais a galera da Baixada esfomeada do pós-praia.

No incrível mundo de Kadu, entrar em fila é maior parada de otário. Sendo no BB Lanches então, o local mais local do Leblon, seria como deixar um pela saco da Barra te rabeirar em pleno Pontão. Logo pra cima do malandro mais sagaz da Zona Sul? Fala sério, meu camarada...

Marcondes não se ligou que com Kadu o tratamento era, digamos, no mínimo diferenciado. Claro, o cara é um monstro no surf, ídolo da molecada iniciante. De rolé no Leblon, geral quer colar nele e não é de bobeira, neguinho respeita. Aliás, respeito é pouco, o moleque é mérmo tradição.

O desenrolo já tava maior sujeira. Os guardinhas logo se ligaram no moleque boladão, quando lá do Jobi, Nobru, seu parceiro das antigas, avistou a confusão. Qual foi, Kadu? Tá moscando aí em lanchonete de haole, meu brother? Vamo de Big Polis! Açaí lá é o veeeeeerme! Muito melhor que essa bagaça aí de mané!

Esse papo de os locais terem trocado o BB pelo Big Polis já tinha chegado aos ouvidos de Marcondes. Cansado de aturar um bando de haole, ficou tão neurótico quanto o açaí de Kadu. Precisava de uma folga pra se recuperar da neurose. Mandou a real para o patrão e no dia seguinte, a porta do BB estampava apenas um recado: "fechado por um mês para férias coletivas dos funcionários". Era hora do Marcondes também curtir o domingão do Lebronx. Issaaaaa!

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

A Claybom congelou


Eu me lembro do dia em que Obama venceu as eleições. Eu estava à espera do metrô em San Francisco quando se espalhou a boa nova. Negros, brancos, pobres, executivos, todos unidos pela emoção da vitória. E que vitória...

Era o triunfo da esperança. O fim da era Bush, das guerras nefastas, do conservadorismo. Um abraço coletivo pela mudança. Mesmo o histórico racismo americano se esvaiu diante da nova perspectiva de governo. As diferenças não mais importavam. Enfim aquela sociedade estava livre das amarras.

Eu que nem tanta empatia tinha por aquela civilização me flagrei chorando, uma Claybom derretida. Podia até ser coisa de latina piegas, mas foi lindo ver um povo celebrando a esperança. Me rendi e deixei as lágrimas rolarem sem cerimônia. O que é que tem? Comprei cerveja e brindei até de madrugada com todo tipo de gente. A lei que proíbe beber álcool na rua parecia ter sido revogada apenas naquela noite. A nação estava em festa.

Alguns anos antes, quando Lula ganhou as eleições em 2002, também me rendi. Ver Lulalá sendo ovacionado por multidões apertou meu peito e lá estava eu toda Claybom me derretendo diante das cenas efusivas do Jornal Nacional. Mais um episódio comovente. Aaaah essa tal esperança...

Agora, cá estou eu mergulhada, pra não dizer afogada, no mar de frustração que tomou conta do país. Sem margem de erro, fui do otimismo ao desalento. Vi de perto o aparelhamento do PT na Petrobras, me enojei diante de tantos cargos entregues a Deus dará. Me surpreendi com uma sucessora autoritária que comete assédio moral quase como regra por trás das cortinas do Palácio da Alvorada. Onde foi parar a estrela que brilha, Lulalá? 

Os jornais esfregam na minha cara fotos do Lulinha paz e amor ao lado de Collor e fico aqui tentando entender onde foi que ele arrumou tantos litros de óleo de peroba, ou será que foi Claybom? Um ex-presidente todo besuntado e só mesmo um lava-jato para dissolver tamanha lambança.

Ironias a parte, a verdade é que nesse Fla x Flu o craque que hoje faz a alegria dos tricolores amanhã está vestindo a camisa rubro-negra e vice-versa. Assim caminha a humanidade e nem por isso, deixamos de ir domingo ao Maracanã torcer para o time que sou fã. Eu, torcedora do Fluminense, meus amigos botafoguenses, outros tantos flamenguistas e vascaínos, queremos gol e não porradaria. Na Copa do Mundo vibramos juntos, no Réveillon brindamos juntos, no Carnaval sambamos juntos e assim somos todos brasileiros, sem correntes de siglas partidárias. Romper nossas amizades por conta de divergências políticas é muito triste, quer dizer, é muito mais do que isso, é estarrecedor.

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

A certeza que fica


Estou há alguns dias abrindo e fechando a página em branco à minha frente. Ela parece me implorar por este post. Resisti até quando pude porque o imprevisível me roubou as palavras. Meu desabafo se foi junto com as lágrimas e ainda assim me sinto no dever de homenagear aqui o cão que acabo de perder.

Por vezes me lembro de Quentin Tarantino e sua visão violenta de mundo. Não sou sua admiradora, mas admito que a peculiar brutalidade de seus longas é muito verossímil. A vida é mesmo cruel. Já me dediquei à meditação, frequentei cursos e diversos caminhos em busca da paz interior, mas o sangue jorrado nas cenas de Tarantino me parece mais fiel à realidade do que a tal respiração e inspiração desse papo harebô. A verdade é que diante das injustiças não há oxigênio que preencha o pulmão. As perdas nos tiram o ar, sufocam, esmagam o coração. 

O impiedoso chicote que surrava os escravos em "Django Livre" agora está aqui maltratando meu corpo. Lembro que ao sair do cinema, ainda paralisada pela explosão selvagem de Tarantino, comentei com meu namorado que seu novo cão deveria ser homenageado com o nome do protagonista. Django, um verdadeiro guerreiro. E assim se iniciou mais uma história carregada de drama, um sinal já predestinado pelo próprio filme.

Neste paralelo de narrativas, as coincidências estão escancaradas. A luta pela sobrevivência, a garra e a entrega total ao amor. Dizem que os cães são irracionais e assim tratavam os escravos, mas para o Django personagem ou animal a mente é desprezível perto do poder do coração. Ambos passionais e que se dane o racional. Talvez este fosse o imã que tanto me conectava àquele cão.

De fato agora ele é o Django Livre, sem qualquer coleira e uma imensidão celestial para usufruir. Quem me dera que isso servisse de consolo, principalmente porque não há reprise pra amenizar a saudade. Não há cópias, refilmagens e tudo foi tão pouco e insuficiente que parece não ter passado de apenas um trailer. Porém, nesta breve história, ao menos existe algo que é infinito - o amor que construímos. Quanto a isto não há dilemas. É a certeza que fica.

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Vitória


Nunca tive um bilhão de amigos, mas sempre contei com poucos e bons. Me enturmava ali com a minha patotinha e tava tudo ótimo, sem drama. Até que um dia conheci a Carol. Ela era um ano mais velha e aos 15 anos isso faz toda a diferença, afinal ela já tinha 16, merecia um puta respeito. Analisei seu visual dos pés à cabeça e vi tatuagens. Yeeeaahh, ela era rock'n roll! Que garota legal, suspirei comigo mesma. 

Aquele ar de menina descolada e independente endossava minha admiração. Ela, sim, tinha um bilhão de amigos, mas sua personalidade era tão livre que não se apegava a essa babaquice de grupinhos. Carol era do mundo. Confesso que foi um choque ver alguém tão democrática e sem preconceitos. Enquanto eu, tolinha, me importava em desmerecer os nerds, Carol arrastava os bulinados para a boate People e metia a cara nos livros com os malandros pendurados em matemática. 

De vez em quando ela aparecia com uma super bolsa Chanel e vestidos mais que grifados. Do alto do seu salto Gucci me olhava com a simplicidade de uma garotinha carioca e me animava para alguma festa na Lapa ou no Leblon, tanto faz. Morava em uma divina casa no Jardim Pernambuco e tinha um motorista à disposição, mas esse papo não colava. Carol andava é de busão, no worries. 

Era um poço de incoerência, cá entre nós, um charme. Como podia combinar em um só rosto olhos tão profundos e tristes com um sorriso sempre vibrante? Uma confusão hipnótica que tornava impossível não notá-la. Às vezes tinha uns lapsos de timidez e sua defesa era jogar o cabelo todo na cara. E não é que ficava ainda mais charmosa? 

Enquanto eu, tão óbvia como todas as adolescentes, só pensava em festas e shoppings, Carol cultuava um único sonho: um grande amor. Eu até me preocupava com vestibular e livros bacanas, nem só de futilidade eu vivia, mas pra ela o amor estava acima da carreira de medicina, das viagens pelo mundo, dos músicos que curtia. Daí entendia-se os olhos tristes. Sem um amor não haveria felicidade, não haveria vitória. Este sim seria seu maior troféu.

Agora não há mais olhos tristes. É que a vitória enfim chegou e amanhã, dia 13 de setembro, a mais romântica do colégio se casa. Parabéns Carol pelo lindo casamento que celebraremos juntas e pela filha que não podia ter outro nome senão Vitória.