quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

A pessimista na Casa Branca




Tinha tudo pra dar errado, só que no trailer dirigido por meus neurônios era o apocalipse. Nada de altos e baixos como em qualquer roteiro normal, comigo era fundo do poço. All the time. Tinha deportação, prisão, humilhação e óbvio, plateia. Afinal, não há drama se o mundo não está ali pra ver.
E olha que o otimismo ecoava de todos os lados, da terapeuta, do marido, dos amigos, mas lá dentro, na minha membrana plasmática, eu já sabia do desastre que me aguardava. Era muita audácia acreditar que uma brasileira pessimista e azarada entraria na terra de Trump com dois cães claramente ingleses, sangue azul, farsantes de vira-latas. Come on!
O prenúncio da catástrofe já deu sinais no caminho do Galeão. Um carro de polícia acidentado parou o Rio de Janeiro. Ah, mas isso é muito clichê! Batido demais pra uma habitué das leis de Murphy. Eu tinha cinco horas de antecedência do voo, podia de fato rolar o apocalipse que ainda assim daria tempo de embarcar. Ok, essa foi moleza, que venha o próximo obstáculo.
O entrave barra pesada tinha nome, Lúcia, quase o Lúcifer. Só não era tão do mal porque gostava de cachorro. Só que gostar nesse caso é eufemismo, porque a diaba era obcecada por bichos. De cara se queixou das dimensões da caixa de transporte. Queria um castelo com cama, mesa e banho pra cada um. Haja lábia pra contradizer uma fanática. Até convencê-la se foi uma boa dose de paciência. Depois veio a desculpa da temperatura. No destino final fazia frio suficiente pra barrar os animais. Ai meu Deus, meus lábios e saliva pra protestar contra a funcionária infeliz. E nisso a membrana plasmática estava lá, à tona, berrando pra todas as vísceras e neurônios que a missão falharia. Se não fosse o marido um verdadeiro rei da oratória, meu destino final teria sido o Itanhangá em vez de Washington D.C. 
No guichê ao lado, um americano também tentava embarcar com um cão, que atenção: era milimetricamente similar aos meus. Ignorante da regra de que essa raça específica não pode viajar de avião, declarou o tipo canino de mão beijada à companhia e obviamente, foi impedido de embarcar. À essa altura, eu prestes a convencer Lúcia de que o frio não era um problema, tive que rebolar pra que o americano indignado não percebesse que meus cães não tinham nada de vira-latas. Eram provavelmente, primos do seu. Oh my god! Foi um funk do Mr Catra, um pagodão do Thiaguinho, uma salsa e merengue no sassarico.
Deu certo! Entre trancos e barrancos, Lúcifer e americano, eu embarquei. Rumo à White House. Seja o que Trump quiser! Só que o piloto resolveu entrar no ritmo da salsa e o avião foi sacolejando até Miami, onde eu faria conexão. Lá o medo era da imigração. Por quê você veio? Que cachorros são esses? Pra onde vão? Tanta interrogação, quanto tensão. Na fila, preparando o psicológico para o interrogatório, percebi as mãos trêmulas, enfiei no bolso. Era efeito da membrana plasmática já eufórica com os policiais fardados de impiedade. Uma lágrima beirava o limite do olho esquerdo, pronta pra escorrer e então, o guarda mais simpático me chamou. Nenhuma pergunta, apenas um sorriso e um carimbo. No way! Era muita sorte pra uma pessimista tão convicta. Membrana plasmática mandou logo: aí tem...
Os cães me esperavam ao lado das bagagens. Vivos e serelepes. Uma pausa pra comida, água e passeio. Tudo certo e embarque novamente. Essa maré mansa já trazia um cheirinho de barbárie no ar. Era o clímax do roteiro que estava por vir. 
A fila da alfândega dava voltas intermináveis e foi o primeiro momento em que enfim, relaxei. Um passo a cada 20 minutos e um check no Instagram. Hummm, Marcela está comendo num restaurante mara! Olha a Mary brindando no BG, a Nina passeando com o Jobi, ah que saudade já estou do Rio. Imersa na nostalgia não percebi que um cachorro me seguia. Era o farejador de drogas da polícia americana hipnotizado por mim. Finalmente ouvi rumores de todos os lados, olhares reprovadores, foco em mim. Travei assustada, envergonhada, humilhada. Aos gritos de "go on!" a oficial me encaminhou a um canto todo especial.
A membrana plasmática já comemorava em alto e bom som quando o espírito da Fernanda Montenegro incorporou em mim. Envaidecida da mesma elegância da diva do cinema argumentei em prosa e verso que por estar com dois cães carregava ração em minha bolsa, o que obviamente justificava a obsessão do farejador. Não convenceu, mesmo assim Fernandona desceu do salto apenas porque teve que tirar os sapatos. Vasculharam cada compartimento da bolsa e ainda desconfiados me levaram a uma sala particular. Lá fui obrigada a me despir, mas Fernandona seguia inabalável, com a mesma paz de quem toma sol na praia de nudismo. Ao me vestir, outra policial cismada iniciou uma conversa investigativa. Todos os questionamentos que não me fizeram na imigração agora eram disparados como tiros de fuzil. Porém, Fernandona também é safa, honey e rebateu cada bala com respostas fofas e cativantes. So easy, baby!
Em poucas horas eu desembarcava com dois cães em D.C. O trio estava são e salvo, exceto pela membrana plasmática, que tomou um cala boca porque em terra de Trump não há espaço pra fake news.

quinta-feira, 1 de novembro de 2018

Herói


Melhor amigo. Um clichê inacabado. Porque sua existência transcende a definição banal pra cães. É que amizade é algo pequeno pra amplitude de seu coração. Mesmo que seu nome carregue esse signo "amigo" no idioma da Indonésia, você não é tão simplista assim, sabemos bem. Nós dois temos uma história muito mais complexa pra contar.
Eu sei, nosso santo não bateu de cara. Você implicava com seu meio-irmão e isso me tirava do sério. Revidei suas provocações, como uma garota mimada. E você me deu um baita susto. Um arranhão por ciúmes. No rosto e na alma. Logo catei meus pedaços e compreendi seu recado. Foi então que começamos a nos entender. Um respeito mútuo, palpável, sólido. Tão sólido quanto seu físico, um exímio macho alfa, musculoso, rígido e no íntimo, sensível, delicado. Um Lindt daquele vermelho. Denso por fora, cremoso por dentro. 
Não encarava. Fazia pelo cantinho dos olhos, como um fã apaixonado. Mas nada de histeria, excitação. Sua onda é tranquila, de boa, zen. Recolhia-se de baixo dos móveis e ali vivia o nirvana. Em paz, feliz. Porque com você nada é normal. Cada gesto é especial. "Não é cachorro, é um gato", dizia a oposição. Na verdade, sagaz. Legítimo lord inglês, dono de todas as nuances da boa educação. Não pular, não latir, não lamber. Regras de etiqueta incorporadas como ideologia de vida. Que classe...
Foi fácil sacar o porquê do desprezo pelo meio-irmão. De baixo do guarda-sol, imponente, majestoso, um nobre, adorava pender olhares desdenhosos ao parente farofeiro. Ele se autoempanava nas areias de Grumari e você ali, esboçando um esnobe sorriso, como quem faz pouco caso. É que seu caso tinha outro nome. Júlio. Seu rei, seu deus. Ele surfava nas ondas, lá tão longe, ainda assim seus olhos o fitavam, atentos, a cada manobra, a cada rajada de vento. Era pra isso que você estava ali. Não era pela praia, não era por mim ou pra tirar sarro do irmão, era pra cuidar do seu ídolo. O ápice da lealdade na sombra de uma barraca de praia.
E a vastidão do coração conservava-se tão imensa que somou outros dois nomes. Dora e Maria. Os casos de amor mais sinceros que já se manifestaram no mundo. Como um herói gigante, você lutou em três frentes, pra expressar a fidelidade na mais possível plenitude. Teman, triplamente fiel escudeiro. Ta aí mais um clichê, mas esse te cabe com exatidão.
Até que foi moleza pra você e foi lindo de se ver. Apesar da lástima que era jamais conseguir levá-lo pra passear. Porque um dos três tinha que estar ao seu lado, que mania! Um cara cheio de personalidade, totalmente homo sapiens. Cão com ego humano, onde já se viu? Eu vi, nós vimos.
Tudo isso, companheiro, só pra te dizer que foi um privilégio dividir o quarto com você. Preciso digerir sua perda a conta-gotas, não é nada fácil. Porque você não é um soldado, é um exército inteiro, é multidão. Entendo que fizemos um pacto de proteção e te agradeço pra todo sempre. Lutar com uma cobra não é amizade, ou fidelidade. É muito além, Teman, é heroísmo. 
Obrigada.

quinta-feira, 19 de julho de 2018

Vem mais pra cá


Quando a gente se conheceu você não me deu muita bola. Expectativas me infartavam e você pra lá e pra cá. Só que mais pra lá do que pra cá. Me ofereceu champanhe, logo vi que era das minhas. Deixou que os outros me perguntassem endereço, profissão e todo aquele blá blá blá. Da cabeceira, me observava, às vezes séria, outras sorridente. E que sorriso... Alguns goles depois e foi sorrindo mais e mais e me encantando mais e mais. Então vocês se conheceram em Trancoso? Assim você inaugurou nossa primeira de tantas conversas.

Não podia te contar que já estava apaixonada, precisava respeitar os ritos de início de relacionamento. Fazer de durona, mulher bem resolvida, exatamente como você é, sabe? Acho que a interpretação convenceu, pelo menos com seu filho colou. Mas aí você contou da sua casa em Mauá e do quanto curtiu a juventude na Maromba e em Maringá, pronto, me partiu no meio. E é conhecida da Carlinha, quem diria, parceira querida da minha avó. Não existem coincidências, eu nasci pra ser sua melhor amiga, estava muito claro pra mim.

Aí veio o seu aniversário. Aquariana como eu, um golpe fatal. A amizade predestinada estava atestada e certificada com firma reconhecida. Mas era muita afinidade, faltavam uns contrastes pra dar um tempero no nosso paladar infantil. Tudo bem, eu merecia uma adrenalina na minha alma pacata. Sua voltagem nas alturas logo me deu injeções de cafeína. Não alcancei ainda os seus 220, mas ao menos saí do zero. Foi um sacode, bom e necessário. 

Eu, tranquila, vivendo em doses homeopáticas. Você, super ativa, fazendo e acontecendo. Encontrei meu equilíbrio perfeito. Só comigo você poderia ficar meia hora presa num elevador. Sua claustrofobia não teve a menor chance perto da minha calma quase nirvana. Você sobreviveu e sei que fui o seu melhor Frontal.

A gente é assim, uma gangorra que não desequilibra nem quando uma indecisa vai ao Saara. Tantas lojas, tantas opções, só com você eu poderia sobreviver àquele mar de dilemas. E tudo se resolveu em minutos e a festa foi um sucesso e você me deu um abraço de mãe.

Depois tomei uma porrada daquelas e já dava como certa uma profunda depressão, mas nosso barco balança mas não tomba. Você me acolheu e sussurrou que tudo ficaria bem. E foi tão doce e fraterno que por um lapso senti de novo como é ter mãe. 

Agora veio a Copa e torcemos quase todos os jogos juntas, mesmo depois daquele inesquecível 7 a 1, que vimos na sua casa, abismadas, sem trocarmos uma só palavra. E estou te devendo uma aula de como passar lápis de olho e também uma ida ao teatro. Vamos organizar suas fotografias e bater perna em Nova York, tipo best friends. Não é que eu tava certa? 

Então vem mais pra cá, aceite uma taça de champanhe e vamos brindar a essa amizade de firma reconhecida. Você não é sogra, nem segunda mãe, é minha melhor amiga.

quinta-feira, 10 de maio de 2018

O grande encontro


Juninho trocou de turno no Jobi pra curtir a noite mais especial do ano. Era a grande festa de celebração ao dia do garçom, não perderia por nada. Recolheu as últimas gorjetas, mas logo bateu a frustração, é que o "faz-me rir" na madruga é muito superior aos trocadinhos da tarde. Bando de mão-de-vaca! Mas nada o desanimaria, até o Baixinho lá do Hipódromo já tinha dado o papo: esse ano a Feira de São Cristovão vai abaixo! A cobra vai fumar e geral vai bailar até o sol raiar. Sente o clima.

Lançou aquele Acqua de Gio, presente de um playboy, seu melhor cliente. De bobeira nem nada, chamou logo um Uber, não ia de busão 460 nem de graça! Aquela lata de sardinha nunca que ia zoar seu traje de gala.

Muita cerveja e pinga à vontade! O Paulinho também trocou de turno lá no Braseiro e mandou ver nas caipirinhas, batidas e uns drinques doidos. Além de garçom, o queridinho da playboyzada do BG, também tirava onda como barman. Sacoleja dali, sacoleja daqui, com aquele sorrisão sempre estampado na lata, tava molinho de pegar uma das garçonetes do Belmonte. Estavam em patota, deslumbradas com o talento e o carisma do moço.

De longe já se via a Jane do Alemão requebrando na pista. O que tem de braba, tem de ginga. Dizem que bota qualquer alemão pianinho, mas tem um molejo, a danada queeeebra no forró. Só mesmo o João de Deus pra sair lá da calmaria do Hipódromo pra se arriscar em São Cristovão puxando a Jane pra dançar. "Ele amansou a fera só porque tem nome religioso", invejava o pessoal do Brewteco. "É isso não, rapá, nunca ouviu falar que é dos carecas que elas gostam mais?", disparou Juninho alisando orgulhoso a cabeça.

O forró rolava solto até que chegou a galera do Bracarense com suas marchinhas de Carnaval. Tocaram Cabeleira do Zezé, Cachaça Não é Água, Aurora... Jane botou no chinelo tudo que é garçonete metida a rainha da bateria. O pessoal do Guimas, que morria de medo da vizinha de bar, abriu a roda pra morena rodopiar.

À essa altura, o Baixinho já tava pra lá de bagdá. Juninho segurou as pontas do amigo, era craque em lidar com doidão. Deu água, Coca, café. Gelo na testa, pescoço e quando se deu conta, acabou a festança. Perdeu as últimas horas salvando o safado do Baixinho.

- Tão pequenininho não pode beber tanto assim, nem cabe no seu corpo.

- Zoa não, Juninho, já to até careta de novo. Mas e agora? Cabô, cabô?

- Que nada! Partiu Jobi!

domingo, 6 de maio de 2018

Sua presença




Nove anos sem você. Lágrimas secaram e vi a dor se despedaçar, assim rasgando, se decompondo, esfarelando em migalhas e esvaindo como fumaça. O nó na garganta lentamente afrouxou até desatar por completo. As lembranças ainda são doces, acredite, talvez nunca percam o sabor, mas as cores se foram. Já te vi em tons de amarelo, preto e branco, agora só branco, seu rosto quase transparente. 

Minha mente se abriu a um vazio sem fim, a ignorância tomou conta de mim. Parei de escrever, de ir ao cinema, de estudar, de rir até chorar. Congelei cada milímetro do corpo, caí em desgosto. Tudo ficou tão chato, sem sentido… Ao menos passei a gostar de vinho, me faz lembrar de você. Não gosto mais da praia, do sol, sua filha praiana agora sufoca no verão. 

Mas hoje algo aconteceu. Tonteiras estão sacudindo meu imenso iceberg, pasteurizando como liquidificador a tristeza petrificada. As lágrimas aos poucos derretem e transbordam deslizando de novo como um milagre. 

É o despertar de um pesadelo tão profundo que volto a sentir seu abraço apertando contra meu coração, vibro na sua pulsação. Ouço lá longe sua voz, é mesmo apaixonante. Devagar, seus olhos pintados ganham cor e forma. Esse olhar que conforta, acolhe e me enche de vida. Minha essência aos poucos brilha. 

Mãe, amanhã acho que vou à praia.

quarta-feira, 30 de março de 2016

Whatafuck?

*História baseada em fatos reais.


Agachei e levantei uma das pernas como um cachorro fazendo xixi. Atrás de mim, alguns marombas se divertiam com tipos variados de flexão. Foi mais que constrangedor, foi desesperador. Eu tinha 12 quilos presos à perna e como se este fardo já não bastasse, eu ainda deveria levantar a porra da perna múltiplas vezes até eu ter certeza de que morri. 

No ápice de meu pré-óbito, a personal trainer fascista gritou: Você quer a bunda na nuca ou não quer? Vamboraaaaa!!! De fato, eu queria a bunda no céu se fosse possível, mas dessa vez quem quase alcançou o paraíso celestial fui eu por inteira, com bunda, alma e tudo que tenho direito.

Sempre tive curiosidade em saber como seria o céu, mas nunca pensei que chegaria lá carregando 12 quilos e nem que deveria me massacrar pra isso. Me senti como Jesus Cristo crucificado, com a única diferença que o motivo da minha morte era puramente estético, realmente nada a ver com religião.

A escuridão repentina me fez pensar que a academia deu o calote na Light, mas aí minhas pernas bambearam e me senti em uma centrífuga desnorteada. Tive certeza: eu definitivamente morri. Minha alma já ameaçava descolar do corpo, quando um ser assustadoramente branco me sacolejou. Ela gritava enlouquecida, o que me irritou profundamente, afinal sempre ouvi dizer que o céu era o reino da paz. Como podia um fantasma tão histérico?

Abri bem os olhos e me dei conta de que foi tudo uma farsa. Eu não tinha morrido. Além disso, a branquela descontrolada não era um fantasma, era simplesmente a Julianne Moore. Oi??? Calma, eu não morri, mas pelo visto, surtei. Pisquei repetidamente mas cada vez que arregalava os olhos realizava que sim, estava diante de mim uma atriz de Hollywood, ganhadora de Oscar e com estrela na Calçada da Fama.

Imóvel eu estava, imóvel eu permaneci. Cheguei a pensar que talvez minha academia, reduto de marombados e estrelas de Hollywood, seria sim a casa de Deus, mas um banho de água gelada me acordou de vez pra realidade. A personal que antes gritava "glúteo na nuca até a morte", agora me inundava com litros de água implorando por minha ressurreição.

Foi então que recompus a calma e a coragem a tempo de olhar bem no fundo dos olhos da suposta atriz e perguntar: sabia que você é a cara da Julianne Moore? Ela retribuiu o olhar fixo e disse: I'm sorry, darling. I don't speak Portuguese.

Whatafuck???

quarta-feira, 13 de maio de 2015

Fora haole!


Kadu Legend, nome e sobrenome do fera mais disposição do Lebronx. Não tem kaô, o cara arrepia no surf e sabe disso. Sim, é marrento mérmo, mas é porque pode. Ninguém estronda no mar como ele. É soltura total, estileira braaaaaba, papo de Delfim Moreira em peso virar plateia.

Ultimamente o quintal de casa era só alegria. Kadu felizão tava gigante no mar clááááássico no Pontão. Dropou, rasgou, desafiou a lei da gravidade. De quebra, o parceirinho da GoPro também representou nas fotos da galera, que vibe! Nem brotou haole pra botar pra ralar. Só moleque bom caindo, a irmandade toda reunida. E depois daquele tubo ia rolar mais o quê? O açaí neuróóóóótico do BB Lanches pra ficar de rei. Ah, agora eu vi vantagem! Issaaaaaaaa!!!

- Coé Marcondes, capricha aí no açaí porque hoje é explosão, meu brother!

Opa! Parece que Marcondes acordou de ovo virado. Enquadrou o moleque na nova regra da casa: primeiro paga, depois pede. Iiiii mané... Deu ruim. Embaçou legal no domingão do Leblon.

Pá, pow! Terror e pânico na Ataulfo de Paiva. Qual foi, parceiro? Tá me tirando pra otário? Quédizê, vagabundo compra açaí pra mais de 10 anos aqui nessa bagaça, dá maior moral na caixinha aí pra rapeize e tu vem agora com esse kaô de pagar primeiro?!

A fila do caixa era um mar de gente. Mar este em que definitivamente Kadu não estava disposto a cair. Uma penca de paulistas e mais a galera da Baixada esfomeada do pós-praia.

No incrível mundo de Kadu, entrar em fila é maior parada de otário. Sendo no BB Lanches então, o local mais local do Leblon, seria como deixar um pela saco da Barra te rabeirar em pleno Pontão. Logo pra cima do malandro mais sagaz da Zona Sul? Fala sério, meu camarada...

Marcondes não se ligou que com Kadu o tratamento era, digamos, no mínimo diferenciado. Claro, o cara é um monstro no surf, ídolo da molecada iniciante. De rolé no Leblon, geral quer colar nele e não é de bobeira, neguinho respeita. Aliás, respeito é pouco, o moleque é mérmo tradição.

O desenrolo já tava maior sujeira. Os guardinhas logo se ligaram no moleque boladão, quando lá do Jobi, Nobru, seu parceiro das antigas, avistou a confusão. Qual foi, Kadu? Tá moscando aí em lanchonete de haole, meu brother? Vamo de Big Polis! Açaí lá é o veeeeeerme! Muito melhor que essa bagaça aí de mané!

Esse papo de os locais terem trocado o BB pelo Big Polis já tinha chegado aos ouvidos de Marcondes. Cansado de aturar um bando de haole, ficou tão neurótico quanto o açaí de Kadu. Precisava de uma folga pra se recuperar da neurose. Mandou a real para o patrão e no dia seguinte, a porta do BB estampava apenas um recado: "fechado por um mês para férias coletivas dos funcionários". Era hora do Marcondes também curtir o domingão do Lebronx. Issaaaaa!

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

A Claybom congelou


Eu me lembro do dia em que Obama venceu as eleições. Eu estava à espera do metrô em San Francisco quando se espalhou a boa nova. Negros, brancos, pobres, executivos, todos unidos pela emoção da vitória. E que vitória...

Era o triunfo da esperança. O fim da era Bush, das guerras nefastas, do conservadorismo. Um abraço coletivo pela mudança. Mesmo o histórico racismo americano se esvaiu diante da nova perspectiva de governo. As diferenças não mais importavam. Enfim aquela sociedade estava livre das amarras.

Eu que nem tanta empatia tinha por aquela civilização me flagrei chorando, uma Claybom derretida. Podia até ser coisa de latina piegas, mas foi lindo ver um povo celebrando a esperança. Me rendi e deixei as lágrimas rolarem sem cerimônia. O que é que tem? Comprei cerveja e brindei até de madrugada com todo tipo de gente. A lei que proíbe beber álcool na rua parecia ter sido revogada apenas naquela noite. A nação estava em festa.

Alguns anos antes, quando Lula ganhou as eleições em 2002, também me rendi. Ver Lulalá sendo ovacionado por multidões apertou meu peito e lá estava eu toda Claybom me derretendo diante das cenas efusivas do Jornal Nacional. Mais um episódio comovente. Aaaah essa tal esperança...

Agora, cá estou eu mergulhada, pra não dizer afogada, no mar de frustração que tomou conta do país. Sem margem de erro, fui do otimismo ao desalento. Vi de perto o aparelhamento do PT na Petrobras, me enojei diante de tantos cargos entregues a Deus dará. Me surpreendi com uma sucessora autoritária que comete assédio moral quase como regra por trás das cortinas do Palácio da Alvorada. Onde foi parar a estrela que brilha, Lulalá? 

Os jornais esfregam na minha cara fotos do Lulinha paz e amor ao lado de Collor e fico aqui tentando entender onde foi que ele arrumou tantos litros de óleo de peroba, ou será que foi Claybom? Um ex-presidente todo besuntado e só mesmo um lava-jato para dissolver tamanha lambança.

Ironias a parte, a verdade é que nesse Fla x Flu o craque que hoje faz a alegria dos tricolores amanhã está vestindo a camisa rubro-negra e vice-versa. Assim caminha a humanidade e nem por isso, deixamos de ir domingo ao Maracanã torcer para o time que sou fã. Eu, torcedora do Fluminense, meus amigos botafoguenses, outros tantos flamenguistas e vascaínos, queremos gol e não porradaria. Na Copa do Mundo vibramos juntos, no Réveillon brindamos juntos, no Carnaval sambamos juntos e assim somos todos brasileiros, sem correntes de siglas partidárias. Romper nossas amizades por conta de divergências políticas é muito triste, quer dizer, é muito mais do que isso, é estarrecedor.

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

A certeza que fica


Estou há alguns dias abrindo e fechando a página em branco à minha frente. Ela parece me implorar por este post. Resisti até quando pude porque o imprevisível me roubou as palavras. Meu desabafo se foi junto com as lágrimas e ainda assim me sinto no dever de homenagear aqui o cão que acabo de perder.

Por vezes me lembro de Quentin Tarantino e sua visão violenta de mundo. Não sou sua admiradora, mas admito que a peculiar brutalidade de seus longas é muito verossímil. A vida é mesmo cruel. Já me dediquei à meditação, frequentei cursos e diversos caminhos em busca da paz interior, mas o sangue jorrado nas cenas de Tarantino me parece mais fiel à realidade do que a tal respiração e inspiração desse papo harebô. A verdade é que diante das injustiças não há oxigênio que preencha o pulmão. As perdas nos tiram o ar, sufocam, esmagam o coração. 

O impiedoso chicote que surrava os escravos em "Django Livre" agora está aqui maltratando meu corpo. Lembro que ao sair do cinema, ainda paralisada pela explosão selvagem de Tarantino, comentei com meu namorado que seu novo cão deveria ser homenageado com o nome do protagonista. Django, um verdadeiro guerreiro. E assim se iniciou mais uma história carregada de drama, um sinal já predestinado pelo próprio filme.

Neste paralelo de narrativas, as coincidências estão escancaradas. A luta pela sobrevivência, a garra e a entrega total ao amor. Dizem que os cães são irracionais e assim tratavam os escravos, mas para o Django personagem ou animal a mente é desprezível perto do poder do coração. Ambos passionais e que se dane o racional. Talvez este fosse o imã que tanto me conectava àquele cão.

De fato agora ele é o Django Livre, sem qualquer coleira e uma imensidão celestial para usufruir. Quem me dera que isso servisse de consolo, principalmente porque não há reprise pra amenizar a saudade. Não há cópias, refilmagens e tudo foi tão pouco e insuficiente que parece não ter passado de apenas um trailer. Porém, nesta breve história, ao menos existe algo que é infinito - o amor que construímos. Quanto a isto não há dilemas. É a certeza que fica.

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Vitória


Nunca tive um bilhão de amigos, mas sempre contei com poucos e bons. Me enturmava ali com a minha patotinha e tava tudo ótimo, sem drama. Até que um dia conheci a Carol. Ela era um ano mais velha e aos 15 anos isso faz toda a diferença, afinal ela já tinha 16, merecia um puta respeito. Analisei seu visual dos pés à cabeça e vi tatuagens. Yeeeaahh, ela era rock'n roll! Que garota legal, suspirei comigo mesma. 

Aquele ar de menina descolada e independente endossava minha admiração. Ela, sim, tinha um bilhão de amigos, mas sua personalidade era tão livre que não se apegava a essa babaquice de grupinhos. Carol era do mundo. Confesso que foi um choque ver alguém tão democrática e sem preconceitos. Enquanto eu, tolinha, me importava em desmerecer os nerds, Carol arrastava os bulinados para a boate People e metia a cara nos livros com os malandros pendurados em matemática. 

De vez em quando ela aparecia com uma super bolsa Chanel e vestidos mais que grifados. Do alto do seu salto Gucci me olhava com a simplicidade de uma garotinha carioca e me animava para alguma festa na Lapa ou no Leblon, tanto faz. Morava em uma divina casa no Jardim Pernambuco e tinha um motorista à disposição, mas esse papo não colava. Carol andava é de busão, no worries. 

Era um poço de incoerência, cá entre nós, um charme. Como podia combinar em um só rosto olhos tão profundos e tristes com um sorriso sempre vibrante? Uma confusão hipnótica que tornava impossível não notá-la. Às vezes tinha uns lapsos de timidez e sua defesa era jogar o cabelo todo na cara. E não é que ficava ainda mais charmosa? 

Enquanto eu, tão óbvia como todas as adolescentes, só pensava em festas e shoppings, Carol cultuava um único sonho: um grande amor. Eu até me preocupava com vestibular e livros bacanas, nem só de futilidade eu vivia, mas pra ela o amor estava acima da carreira de medicina, das viagens pelo mundo, dos músicos que curtia. Daí entendia-se os olhos tristes. Sem um amor não haveria felicidade, não haveria vitória. Este sim seria seu maior troféu.

Agora não há mais olhos tristes. É que a vitória enfim chegou e amanhã, dia 13 de setembro, a mais romântica do colégio se casa. Parabéns Carol pelo lindo casamento que celebraremos juntas e pela filha que não podia ter outro nome senão Vitória.

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

O meu alien


Eu odeio o meu umbigo. É um alien gordo, largo, fundo, difícil de limpar. É uma merda. Uma vez meu namorado comentou como é raro ver um umbigo cheiroso e é verdade. Não que o meu seja fedorento, sejamos justos, mas definitivamente não exala o perfuminho de bebê do meu sabonete. Pode esfregar até com detergente, esfolar a criatura. Não tem jeito, meu caro, nunca serão! Já procurei no Google se existe alguma micro plástica ao menos pra deixá-lo mais raso. Sim, admito, eu sou uma daquelas taradas que procuram no Google até bula de remédio e receitas pra soltar o intestino. 

Mas voltando ao umbigo, existe sim uma operação para deixá-lo oval, raso e vertical, acredita nisso? Segundo aquele site, blog, sei lá que merda é aquela de Yahoo Answers, muitas mulheres frequentemente procuram um cirurgião só por conta do cobiçado umbigo vertical. Que alívio, não sou a única maluca no mundo! O problema é que tenho medinho de entrar na faca, então vamos deixar o projeto do umbigo oval para o dia em que eu perder a lucidez de vez.

O fato é que um dos super "especialistas" do Yahoo Answers explicou com toda a credibilidade de um engana trochas como eu, que alguns umbigos são fundos por conta de uma tal gordura subcutânea ao redor do monstrinho. Sabe de nada, inocente! Aquilo não tem nada de sub, na real, é uma borda de banha tão poderosa que o deixa soterrado na barriga implorando por um bilhão de abdominais infra para o coitado tentar respirar. Mas aí ele mexe com dois outros caras muito mal encarados que não me abandonam jamais: a preguiça e a larica. Uma briga sem fim, nível Israel e Palestina.

Outro dia minha terapeuta disse: "Fernanda, o mundo não gira em torno do seu próprio umbigo". Eu, comigo mesma, me lembrei do meu alien e pensei: Graças a Deus!

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

O último pedaço


Lá estava eu gorda e voraz me lambuzando de catupiry e camarão. Cada mordida um orgasmo. A língua salivante dava cambalhotas na boca e as celulites se reproduziam em festa. Que alegria! O objeto do crime? Um suculento e impiedoso rissole recheado da mais alta perdição que se tem notícia. 

Um caso indefensável, confesso. No entanto, euzinha aqui era a ré mais feliz do tribunal. Felicidade que sem dúvida tinha prazo de validade a vencer e eu sabia que o fim estava próximo. Os neurônios até já se esforçavam para aceitar sem muita dor que o último pedaço estava sentenciado. Era preciso otimizar cada mastigada da forma menos sofrida possível. Porém... Ah porém...

Nada como uma reviravolta num caso aparentemente óbvio. Na reta final da condenação eis que surge um cúmplice tão culpado quanto eu. Um dos homens mais cruéis e desalmados da história. Ele não só cometeu um pecado atroz quanto duplicou sua pena ao consumar o pecado do pecado. Nem Judas seria capaz de tamanha barbaridade. Não foi apenas uma traição. Foi uma emboscada.

Tudo aconteceu em segundos. Minhas mãos posicionavam o último pedaço entre os dedos trêmulos ainda não muito conformados com o fim. Ao me preparar para o ato final sorrateiramente outra mão, que definitivamente não era a minha, se materializou bem diante do meu nariz. Lá estava eu cara a cara, mano a mano, com uma cena tão insolente que desacreditei do que estava por vir. 

Foi o tempo de a ficha cair para o mais petulante dos mortais raptar o último fragmento que me restava do rissole de camarão. Ele não só cometeu uma violência contra mim como impediu o meu grand finale. Qualquer juiz mequetrefe sabe que nem em terra de bandido comete-se uma atrocidade desse nível. Era o apocalipse.

Como alguém rouba um último pedaço? Cadê a moral deste ser? Cadê a ética da humanidade? Eram as perguntas que rondavam o júri antes da sentença final. Foi o suficiente para abrandar minha pena, que como se vê, já havia sido dura demais. 

Tamanha injustiça me fez aprender na pele e no estômago a nunca dar mole com um camarão na mão, sobretudo o último. Já condenada pelo pecado da gula, ainda fui obrigada a concordar com o veredicto final dado a marteladas pelo juiz. "Fernanda, sua pecadora, que isto lhe sirva para dar mais atenção às sábias palavras do filósofo Zeca Pagodinho: camarão que dorme a onda leva". E leva mesmo...

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

O bagulho é doido


Um Instagram matador. Combos de vodka, mulherada, playboyzada, uma explosão de noitadas. A vida e a obra de Carlos Henrique vão muito além de casa, trabalho e Baixo Gávea. O cara desafia qualquer limite do que seria uma rotina social normal. Festa é todo dia e a rede social tá aí, claro, pra divulgar as boas do nosso camarada. São sinapses e mais sinapses do que há de mais profundo e consistente em pool parties, boat parties, mountain parties, beach parties, all shit parties. Nas legendas, um único lema: o bagulho aqui é dooooido!

Uma vida inteira feita de likes e hashtags. O bonitão não tá de bobeira. Em pouco tempo chegou a 10k seguidores! Uooooouuuuu, sente o drama, broooother! É muita "tiração" de onda! Dizem que metade é comprada, mas sinceramente, CA-GUEI! Neguinho tá seguindo? Tá dando uma moral lá nos likes? Então já é!

Mais conhecido como Brodão pelos malandrecos do Leblon e adjacências, nunca imaginou que sua fixação pelo Instagram lhe causaria problemas. Tudo porque um dia percebeu que as fotos da galera com os clássicos comentários "patronagem reunida" ou "só a diretoria" já estavam meio manjadas. O novo plano infalível seriam as selfies com caretas do tipo "sou muito crazy". Não é que a parada explodiu? Mais de mil likes por foto. Porém, como diz seu dialeto, #sóquenão. É que tamanha popularidade acabou proliferando uma imensidão de plágios em toda a internet. Que vacilação...

"Carlos Henrique está se sentindo boladão", diz o Facebook. E agora? As selfies foram tão banalizadas que, em pouco tempo, os 10k viraram 5k e assim foi ladeira abaixo. Apelou então para um aplicativo x9 que delata todos os ex-seguidores, mas se deparou com uma lista interminável de traíras. Anotou um por um e deu o troco: unfollow em geral! Qual foi da parada, irmão? Bando de comédia! Ex-seguidor é inimigo, tá ligado?! É papo de tiro, porrada e bomba! Terror e pânico! Faixa de Gaza!

A cada nova party que surgia era mais um ex-seguidor que tomava porrada, até porque papai é desembargador e aí sabe como é né? Ele só não contava com uma queda tão sinixxxtra de likes e consequentemente, uma cambada cada vez maior de comédias pra tomar pescotapa. Pô, maior esculacho com o cara.... Em poucos meses seu Instagram mais parecia uma página fantasma. Decidiu então detonar seu perfil. So late, darling... Arrumou tanto caô que os promoters passaram a vetá-lo das all shit parties.

Dizem os ex-camaradas que Brodão virou maior sujeira. Era hora então de varrer tudo pra debaixo do tapete. Sumiu das redes sociais, dos exclusives sunsets e até dos rooftops, quem diria... Não se vê mais o garotão nem ali de rolézinho pelo BB Lanches. Neguinho já tá tirando o cara até pra maluco. Vê se pode? Falam que agora ele tá metido nesses lances aí sinixxxtros de terapia, psicologia, médico de cabeça e o escambau. Mas verdade seja dita, ele avisou. Afinal, o bagulho é dooooooido, broooother!

quarta-feira, 2 de julho de 2014

O vício


Confesso, eu estalo dedos. Já tentei diversos truques pra me livrar da dependência, mas nada foi capaz de vencer esta luta. E olha que não me falta cartão vermelho. É que ninguém fica indiferente diante da sinfonia que componho. Já me avisaram que é feio, aflitivo, deprimente, mas não me aguento, é um fardo, um tormento. São cerca de 240 estaladas por dia, portanto dez estalos por hora. É, eu também estalo os dedos dormindo. Infelizmente o nível da doença já está bem avançado.

Nas inúmeras tentativas de rehab apelei pra tudo. Porém, o prazer daquele pá pá pá entre os ossinhos é como arrematar um gol aos 47 do segundo tempo. A comparação futebolística não é à toa. É que eu e a seleção temos um adversário em comum: a temida tensão. Por culpa dela, nestes tempos de Copa, talvez eu tenha triplicado as estaladas. É provável que até a final eu chegue à overdose de estalos, quebre os dez dedos, adquire uma artrite para o resto da vida. 

Não chego a ser uma ogra estaladora de dedos, afinal respeito os ambientes não muito propícios para tamanha "delicadeza". Jamais alguém me verá esmigalhando as mãos num jantar romântico ou numa entrevista de emprego. Eu realmente me contenho. Mas e quando rola aquela esticada na noite? Logo com ele que pensa estar acompanhado de uma donzela tão graciosa, na verdade uma maníaca obsessiva compulsiva. Pois é, dormir de conchinha, refém da abstinência de estalos por pelo menos oito horas é pior que pênaltis contra o Chile. O silêncio do quarto também não ajuda. Qualquer mini estaladinha já pode despertá-lo. Haja coração, Galvão!

Meu consolo é que me limito às mãos. Não sou daquelas taradas que contorcem ombros, pescoço e pés à procura do estalo perfeito. Umas fritadinhas ali no indicador, polegar e demais companheiros já são suficientes. Também não sou fominha, sabe aquelas pessoas que não se contentam com os próprios dedos e mendigam estalos em mãos alheias? Me tira dessa! Sei bem o limite da fronteira, não avanço territórios. 

Minhas defesas até que são bem contundentes, mas já é hora de virar o jogo. Agora só quero atirar as mãos pra cima e gritar é campeão. Expulsar toda a tensão, rezar para o Felipão e também para o Neymar. Que eles vençam este enredo, virem a Copa do avesso, sem prorrogação, como num simples e sonoro estalar de dedos.

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Eu mato aula


Noite sim e noite sim também eu sonho que estou matando aula. Não é exagero. No meu inconsciente sou a líder mundial do turismo escolar. Na verdade, o ambiente até que é bem variado. Mato aula no Colégio Santo Agostinho, na PUC, no curso de inglês e até em lugares que nunca estudei. Essa noite por exemplo sonhei que matava uma aula do Colégio Wakigawa. Não sei se isso que chamavam de "escola" ainda existe, mas me lembro que ali sim era o grande império internacional de matadores de aula. 

Já foram tantas noites de matanças que hoje me peguei refletindo sobre o porquê dessa fixação. Até confesso que na minha fase de estudante tive mesmo algumas fugas secretas, mas meu currículo não chegou a ser de uma homicida em série. Eram matanças espaçadas, digamos assim. Lapsos que quando aconteciam, admito, me mergulhavam num prazer inenarrável. Ao contrário de muitas amigas, eu não matava aula para aprontar coisas ilícitas, se é que vocês me entendem. A lacuna acadêmica era totalmente preenchida com horas e horas de sono. Que delícia!

Dormir à tarde depois de almoçar bife com batata-frita ao som de Chaves no SBT era pura volúpia. Quanta felicidade! Me deleitava em saber que enquanto isso todos reviravam os olhos na aula de trigonometria. Ainda assim o maior prazer vinha mesmo do espírito "ilegal" implícito em matar aula. Era uma forma maravilhosa de transgressão. Contra a lei dos pais, dos professores e dos amigos invejosos que nunca conseguiam brecha para burlar a única obrigação que tínhamos. Eu matava aula na minha própria casa, quanto luxo! Contanto que meu pai e nem meus filhos no futuro leiam esse texto, admito, com as bochechas rosadas de vergonha, que matar aula era realmente um dos meus melhores atributos.

Aposentei minha carteirinha de estudante há uns anos mas o prazer de matar aula definitivamente não abandonou meus sonhos. Trigonometria, fórmulas de química, leis da Física, está tudo lá no meu inconsciente. Aulas que não me serviram tanto para a vida, mas que alimentam uma incrível sede de transgressão. Mesmo que em fantasia.

terça-feira, 13 de maio de 2014

Fly me to Paris


Da noite para o dia uma viagem a Paris. Pisquei bem os olhos enrugando cada milímetro de pálpebra. Precisava ter certeza de que tudo não passava de um sonho. É o tipo de pegadinha que meu inconsciente adora aprontar. Quis checar todas as variáveis. Lá fora, uma festa de arromba aguçava meus ouvidos, mas soava algo insano como axé ou pagode. Definitivamente uma trilha sonora que não estaria em um sonho. Minha mente não seria tão canalha assim. A realidade estava escancarada na minha fuça e no entanto, eu custava a acreditar. Falando em fuça, até o cachorro se deu conta que ninguém ali estava dormindo. Avistou meus olhos arregalados e... Opa, ela acordou! Com um salto magnífico à la Matrix, me invadiu com lambidas suculentas. É, não era mesmo um sonho. Eu realmente ia a Paris. 

Que roupa levar? A quem contar? Posso gritar? São tantas emoções mesmo, Roberto Carlos. Tarefa árdua essa de manter a compostura e me fingir de lúcida. No way! Eu precisava berrar ao mundo que estava a algumas horas da cidade luz. Esqueci das contas a pagar, dos compromissos já marcados, do espelho quebrado, da toalha molhada em cima da cama. Deixa isso pra lá, vem pra cá, o que é que tem?! Não tem nada mesmo, então meu Rio de Janeiro só posso lhe dizer duas lindas palavrinhas: au revoir! 

E não me venha com meditação, respiração, enrolação. Ansiedade se afaga com uma boa garrafa de vinho na Champs-Élysées, monsieur. Mas e o frio? Quanta bobagem! A brisa parisiense nada atrapalha, na verdade aconchega e é tão gostosa que fica fácil sentir a Torre Eiffel e os lindos parques de braços abertos para nós, meros admiradores.

Tão romântico quanto Shakespeare. Cada pedacinho de Paris fez brilhar meus olhos. Acelerou a pulsação, estremeceu o corpo, fez suar frio as mãos. E foi assim, como uma adolescente e os lábios mordidos de emoção, que cantei, me encantei, me apaixonei.

Nunca foi tão prazeroso me perder em uma cidade grande. Com o namorado a tiracolo, vasculhei cada esquina, me deleitei na gastronomia, fiz pose pra foto, me travesti de francesa rica. Tanta beleza ao redor que acabamos por nos tornar mais belos e apaixonados. Naquela atmosfera, o beijo é mais beijo. O amor é mais amor.

Voltei ao Rio tão gratificada que subestimei até mesmo Frank Sinatra. Atrevida como nunca, reescrevi seu famoso refrão: fly me to Paris, dear Frank. A lua está lá e é feita de mel.

quinta-feira, 3 de abril de 2014

Capítulos de uma solteira


Estar solteira tem suas peculiaridades. Terminou o namoro? Desistiu daquele casinho enrolado? Não importa em qual circunstância calhou o famoso pé na bunda e menos ainda interessa quem foi o batedor oficial do pênalti. O fato é que o jogo acabou e você entrou para a entressafra. Mas não se desespere! Estar na entressafra não é necessariamente uma tragédia. Pense bem: a oferta não é tanta mas o produto valoriza que é uma beleza. Prepare-se então para incorporar a gata mais desejada do pedaço e aprender a lidar com as especulações que vêm por aí.

Na entressafra existem três capítulos tragicômicos e inevitáveis: o revival, o avulso e o link. O revival nada mais é do que o "vale a pena ver de novo" da Globo. Tá sempre lá na sessão da tarde. Você já assistiu, insistiu e desistiu mais de 378 vezes, mas depois daquele almoço, no aconchego do edredom, ar condicionado e chuvinha na janela, aaaaahhhh é bom demais, vai! É difícil mesmo resistir. O mundo te compreende, acredite. Mas aí você se lembra da porrada que tomou naquela batida de pênalti e sabiamente resolve mudar de canal. Obrigada Net pelas 153 opções do seu combo HD neste momento tão difícil.

De volta à entressafra, chegamos ao temido sábado à noite - o dia internacional da pegação, ou não. Você quer sepultar o ex, encontrar o príncipe que o destino lhe reserva ou... No ultimato fatal da carência, decide apelar para o avulso - aquele 2º capítulo que falei lá em cima. Pois é, o avulso é tragicômico por si só. Não que seja ruim ou bom, na entressafra não ligamos muito pra maniqueísmos, mas é que o avulso é desamarrado até demais. É um intruso, um tapa-buraco pra fechar de última hora o elenco da novela. Você ainda tenta enquadrar aquele alien em algum argumento do seu roteiro, mas o cara é recém-formado em agronomia, mora em Cuiabá e é cinco anos mais novo que você. É... Haja argumento.

Sobreviveu ao revival e deu um chega pra lá no avulso? Agora é hora da produção voltar à tona. As condições climáticas já favorecem, a situação econômica está ganhando fôlego e o País em peso clama pelo fim da entressafra. Ok, rolaram umas escorregadas aí nesse meio tempo, mas você continua lá, firme e forte, com a dieta em dia, armário renovado, 100% inabalável! É neste momento, como quem não quer nada, que a amiga sequelada comenta: "sabe que você tem tudo a ver com o Marcelinho? Posso apresentar vocês?". Para tudo!!! Ooooiiiiiii? Eu aqui apelando pra avulsos de Cuiabá e você só se lembra agora de um amigo bacana pra mim??? É, baby, com vocês... Eis o link!!!!

Se o tal link vai dar samba, nunca se sabe. E mesmo se a conexão falhar, um pagodinho ao menos sempre pode rolar.

terça-feira, 11 de março de 2014

Ah o Carnaval...


Após degustar uma variedade incalculável de suor alheio, ela ensaiou um bate-papo com a companheira de bloco, mas o terceiro latão de Antártica parece ter embrulhado suas palavras. No vai e vem da multidão, uma mão peluda e colenta a agarrou com determinação pela cintura interrompendo qualquer início de conversa. É que o capitão gancho, ironicamente se encantou por sua meiga fantasia de sininho. Logo se engancharam. O rala e rola que a muvuca proporcionava deu um empurrãozinho, literalmente, para ela desencalhar, aleluia! 

Aquele mix de saliva com resto de álcool banhado em suor deu um gostinho todo especial ao beijo. A química estava tão boa que ela nem reparou no capitão já mirando de rabo de olho a abelhinha faceira que vinha toda serelepe ali atrás. Salvo pelo gongo! Antes da colmeia partir, o celular da meiga sininho vibrou. Foi só o tempo de checar o WhatsApp para o malandreco se enganchar com seu novo alvo.

Apesar de tantas adversidades, seus olhos brilharam, isso porque acabara de receber a tão esperada resposta sobre o camarote bafônico da Sapucaí. Depois de todo um trabalho de convencimento e uma dose de pressão psicológica, seu amigo que é conhecido da prima do promoter do camarote quebrou um super galho e disse que tentaria uma possibilidade de incluir seu nome na grande festa. Tudo bem que o credenciamento para "vipar" na passarela do samba parece mais a imigração dos Estados Unidos, mas como estamos no berço da malandragem, para qualquer eventualidade há sempre um jeitinho. Agora sim ela estava pronta para comemorar!

Hora de abastecer o fígado, iiiiiii lá vem aquele chato com pistola de água. É bom para aliviar o calor, grita o mineirinho cheio de graça. Ela respira fundo e avista o gatinho da Barra comprando vodca lá no Zona Sul. É a salvação! Traça uma reta e vai.

- E aí, Marquinhos, não vai pro bloco?
- Vou nada... Tá rolando uma pré na cobertura de um camarada e depois geral vai chegar lá no camarote da Sapucaí.
- Opa! Você conseguiu?
- Claro né, gata... Só to bolado porque não vou poder ir nas campeãs...
- Ah, logo no melhor dia! Mas por quê?
- Punta del Este me espera, gata... Sabe como é né, não tem como passar um carnaval sem ser no Conrad.

Os amigos do condomínio Santa Mônica se entreolharam orgulhosos até que um deles questionou: Grey Goose mesmo ou essa Ciroc aqui boladona? A Ciroc tá playssom heim! Chegar lá na cob do Xande, como né? Tirando maior onda, moleeeeeeque!

De fininho ela se manda com sua modesta Antártica em mãos e faz uma breve reflexão: voltar ou não para o bloco? Sua companheira a essa altura fatalmente virou patê no mar de gente que se amontoava na Dias Ferreira. Os seguranças do Sushi Leblon já orquestravam uma força-tarefa para proteger os clientes dos perigos do mundo lá fora. Enquanto isso, as dondocas no restaurante discutiam se paravam ou não de usar Adidas depois da marca ter feito uma alusão do Brasil às popozudas de fio-dental, um verdadeiro absurdo!

A poucos metros dali, sininho esbravejava em meio a uma legião de boazudas desfilando seus dotes traseiros e bombados seminus flertando entre si. Era mesmo o apocalipse. Ela nunca desejou tanto se tornar uma daquelas dondocas desprezíveis. Seria bem menos sacrificante estar polemizando sobre a Adidas entre um gole e outro de saquê com flocos de ouro do que ser massacrada por bundas, músculos e ambulantes. Aliás, até a Ciroc boladona do Marquinhos seria menos humilhante.

Entre cotoveladas e bundadas, ela aterrissou sobrevivente na única esquina ainda sociável de todo o Leblon. Suspirou aliviada até que um Audi super tunado estacionou na sua frente. "E aí gata, partiu Sapucaí?". Lá se foi sininho feliz e desprezível bebendo uma garrafa de Ciroc nos braços de Marquinhos. Seu camarote agora estava garantido. Ah o Carnaval...

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Overdose de selfie


Uma garfada e um flash. Já faz tempo que rende no Instagram os cliques das comilanças nossas de cada dia. Foto no espelho do elevador também bombou na timeline e por pouco me fez desistir de vez da rede social. Hashtags sóquenão, aboutlastnight e zilhões de outros blábláblás similares também me reviraram os olhos de tanto tédio,  um sentimento rotineiro na minha vida em tempos de busca ilimitada pela autopromoção.

A multiplicação de narcisos na tela de nossos celulares é tão over que nasceu o termo "selfie" para dar nomes aos bois. Mas a boiada é tão numerosa que já inventaram o "usie" para nomear fotos de narcisos em grupo.

Os porteiros de plantão, aqueles que não se cansam de dar bom dia e boa noite ao Facebook lideram o topo da minha lista negra. Já os Galvões Buenos que narram cada minuto do jogo do Flamengo são definitivamente a nova praga do século 21. E as frases de efeito, lições de moral ou indiretas para o ex? Essas são atemporais. Infinitas enquanto durem. Um clássico da dor de cotovelo, mas e eu com isso?

A autopromoção realmente parece ter se tornado o câncer das redes sociais, talvez porque elas tenham aberto uma enorme janela ou melhor, um palco mundo para os carentes e inseguros por natureza. Aqueles que necessitam deliberadamente de público full time cansam a beleza de si mesmos. É tão exaustivo que não há rostinho bonito que fique bem na foto depois de metralhar a timeline dos outros com sua auto-imagem. Nesse caso, a bula do Simancol é categórica: selfie pode causar entre infinitos outros males, até mesmo overdose. Na língua deles, ficaadica!

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Espelho, espelho meu


Quebrei um espelho. Um efeito devastador congelou célula por célula até que a minha respiração simplesmente parou. Foram segundos de extremo terror. Então meus olhos ainda estremecidos conseguiram forças para piscar e enfim, o tico e o teco decidiram funcionar. A mensagem é quase o apocalipse: acredite ou não, são sete anos de azar. É... A ficha caiu e em seguida, as lágrimas também. Chorei, esperneei, xinguei e por fim me perguntei: e agora?

Sim, eu sou supersticiosa. Lei de Murphy é habitué na minha rotina. Me esforço para lidar com isso desde que aprendi a dirigir e me dei conta de que não adianta mudar de pista porque a do lado sempre vai andar mais rápido que a sua. Até aí tudo bem, mas sete anos já é overdose de uruca para uma só pessoa, no caso para a minha pessoa, o que é muito pior. 

Nessas horas um legítimo supersticioso corre pra internet. É preciso descobrir o que pode amenizar tanta má sorte e pra isso vale tudo, simpatia, feitiço, reza braba, vai depender do nível do seu desespero. É aquela velha história, em momentos como esse, meu caro, só o Google salva!

Depois de me entediar com infinitas receitas de répteis, plantas silvestres e sementes selvagens que apenas o preto velho ouviu falar, ponderei minha angústia: "garota, cai na real! Você vai mesmo arrumar um sapo e ficar com ele até meia-noite só por causa de um espelho quebrado?". Pois é, a razão falou mais alto, mas no fundo o efeito da superstição já estava lá, plantado e pronto para crescer dentro de mim.

Então diga-me espelho, espelho meu, precisava se quebrar todo para que eu visse meu cão ser atacado por um pastor alemão, perdesse meus óculos preferidos, brigasse com as melhores amigas, me enrolasse mais ainda com um romance perdido e ainda ganhasse de brinde uma enxaqueca enlouquecedora por dois dias? Isso para não dizer outros episódios impublicáveis aqui.

Decidi contornar a situação. Mudei o caminho do trabalho trocando o marrom imundo do Rebouças pelo azul da orla. A beleza carioca me embebedou de esplendor. Meus olhos espelharam a paz da natureza no retrovisor e nada se quebrou. Esqueci do sapo, do espelho rachado, dos momentos azarados. Apaguei a mente e segui em frente. Sem espaços para crendices. Apenas inteira, maravilhada, energizada. O Rio me curou. É contagiante. Morando aqui, espelho, espelho meu, nem preciso perguntar se existe alguém mais sortuda do que eu.